terça-feira, agosto 14, 2018

As cartas do meu avô

Quando o meu avô me dizia que o amor é como uma planta que precisa de ser regada, tinha sempre por hábito sorrir-lhe, fazendo-o acreditar que não era demasiado imatura para perceber o sentido das suas palavras.

-Um dia vais perceber, seja lá quando for, todas as coisas absurdas que este velho te diz. – dizia ele, com a mão enrugada sobre os meus cabelos castanhos e um sorriso entristecido no rosto. Era evidente que se referia á minha avó. Cuja partida era demasiado recente para que  estivesse conformado – se algum dia o conseguisse ultrapassar (quase por milagre – assim o temo). Era como se, para ele, a única razão da sua existência tivesse simplesmente deixado de existir. Tornara-se um vazio. Até as flores deixaram de o cativar. Passava horas sentado á porta da estufa, a olhar para a entrada. Talvez na esperança de ver a minha avó sair com as rosas em punho –assim o era todos os domingos.

-Estas são para ti meu amor. – tantas vezes o ouvia dizer á minha avó, enquanto lhas passava  para o colo.

O meu avô era o maior dos românticos, por algum motivo partiu pouco tempo depois da minha avó sucumbir ao cancro. Usava uns óculos redondos que o assemelhavam aos poetas clássicos. A par das suas rosas, o grande amor da vida do meu avô só tinha um nome: Rosa – a minha avó.

E agora que cresci, e que a vida me foi tirando o chão cada vez que tentava empoleirar-me no céu, percebo perfeitamente todas as metáforas lamechas que o meu avô fazia em cada conversa nossa.  Percebo, contudo, que amor como o deles é difícil de se encontrar por aí. Um amor cujo fim nem a própria morte conseguiu consumir. Ás vezes, quando as luzes da rua se apagam e a almofada é a única que me pode ouvir, faço réplicas constantes dos sonetos do meu avô. Peço-lhe um amor como o deles. E, embora eu saiba que o amor deles só existiu porque foi tirado de um livro cujo autor não se chama destino, acredito vivamente que, estejam eles onde estiverem, estão a torcer para que eu viva um amor como o deles.

Tenho o coração gasto pelos tropeços que dei na minha própria felicidade, contudo, acredito vivamente que não foram á toa todas as vezes em que o meu avô colocou a mão enrugada sobre os meus cabelos castanhos e disse:
"Tu nasceste para ser feliz minha neta!"

《...》 ♡

segunda-feira, agosto 13, 2018

Sobre o tempo


Perdi a conta às vezes em que ouvi o meu pai dizer-me: “Tu tens lá idade para perceber isso.” Não fosse uma das minhas maiores virtudes a teimosia e eu era bem capaz de reflectir sobre o assunto. E, teimosia ou não, a verdade é que as circunstâncias da vida têm-me dado garantias de que estava certa quando teimava em dizer-lhe que a idade não significa nada. “A idade é uma treta!” – respondia-lhe tantas vezes.

A idade. A idade e essa ideia absurda de que é o tempo que define absolutamente tudo. Vai-se lá saber porquê, é suposto haver idade predefinida para tudo: Idade para crescer. Idade para dar o primeiro beijo. Idade para namorar. Idade para perder a virgindade. Idade para ser-se mãe. Idade para casar. Idade para dizer-se palavrões. Que treta!
Ora vejamos: Se assim o é como se justificam todos os casos insólitos que abrem as capaz dos nossos jornais? Se assim o é porque é que há tanta gente crescida a agir como autênticos imbecis? Vejamos o grande exemplo da televisão portuguesa “Secret story” e não é preciso ir-se muito longe para perceber que se há coisa que não define o carácter, é a idade.

O que a vida me tem provado é que , contrariamente ao que teimava em defender o meu pai, a idade é tudo menos um indicador para o que quer que seja. É a vida. A vida e as circunstâncias que dela fazem parte. As experiências. As quedas. Os ensinamentos que tiramos de tudo aquilo que corre mal e as forças com que nos levantamos, todos os dias, dispostos a lutar para mudar aquilo que não está bem.

A nossa capacidade de superação é a maior das nossas forças. E, seja com 10, 20, 40 ou 70 anos, pouco importará a idade que tenhamos quando se trata de lutar por aquilo em que acreditamos. O carácter que possuímos nada tem que ver com as coisas que vivemos mas sim com aquilo que decidimos fazer perante aquilo que tenhamos vivido.

Se estás á espera de crescer para puder ser alguma coisa, acredita em mim, jamais serás coisa nenhuma. São as portas que a vida te permite escolher para abrir que ditarão onde chegarás. Contudo, tomar a decisão de escolher os caminhos certos levar-te-á, muitas vezes, a cair no erro de bater com a porta no nariz.

O mais importante: Não desistir – nem de ti, nem daquilo que queres ser. 

segunda-feira, outubro 05, 2015

Perder-te

Amar-te é tudo o que eu sei fazer. E perder-te estava fora dos meus planos. A possibilidade da vida levar-te de mim era tão provável quanto a lua cair em direcção á terra. Mas a verdade é que, mesmo que eu nunca o tenha concedido como algo provável, o facto é que aqui estou eu: coberto de negro e de vazio. A suportar o corpo da tua irmã que, embebido em fármacos, chora sem ter lágrimas o lamento de uma perda inesperada. Se realmente existir a possibilidade a que todos chamam de “vida além da vida” eu espero mesmo que estejas aqui. E que tenhas a possibilidade de ver e sentir o quanto foste amada enquanto a doença não te levou de nós.

O cemitério está cheio de pessoas, algumas delas cujas faces eu não consigo reconhecer. Mas a verdade é que, por mais estupido que possa parecer, não olho para a multidão para ver se reconheço todas estas caras. Faço-o na esperança desesperada de reconhecer os teus olhos verdes entre os demais. Como vou viver eu sem eles?

Começou a chover. Pelo menos agora posso disfarçar as lágrimas que caem dentro de mim como uma cascata sem água. Há milhares de possibilidades no mundo há disposição dos meus sonhos e eu só queria ter-te comigo, incluir-te em cada um deles, como fiz até hoje. Ouvir-te reclamar com as luvas cheias de terra que eu pousava na banca de lavar loiça junto com o regador e a pá de bricolagem. Despertar o teu mau humor matinal e viver para sempre com aquele teu sorriso cravado no rosto, sabendo que eu era 99% do leque de motivos. Pelo menos tu dizias. Não mintas.

Há bastante tempo que deixei de ouvir o discurso carinhoso que o teu pai está a fazer enquanto o teu corpo desce para a última morada. Estou a conter-me para não sair daqui aos berros e atirar-me da primeira rabina que encontrar mas a tua irmã parece que mergulhou num mar profundo e eu, tal como me pediste, não deixarei que ela se afogue. Cuidarei de todos aqueles que tu estavas habituada a cuidar. Farei por ti tudo aquilo que fizeste por mim, por nós e por todos aqueles que te amam. Ainda assim, não me julgues cada vez que quiser desistir. Porque honestamente aquilo que agora nos separa é a única coisa que nos une: a morte e a possibilidade de ela existir para mim.


Descansa em paz meu amor, em breve seremos dois. 

quarta-feira, setembro 09, 2015

Uma carta do tempo

Às vezes, senão muitas, são os mais fortes que desistem. Somente os fortes são capazes de admitir as suas fraquezas (que ao fim ao cabo não o são) e seguir em frente mesmo tendo “deixado”, parte do que um dia foi relativamente eterno, para trás. E por falar em eternidade, convém relembrar que a eternidade, e quase tudo na vida, muda todos os dias. Assim como o caminho que fazemos. Sim, porque a vida é um caminho. E só vive quem consegue, consciente dos riscos, dos buracos, dos desvios e de toda a bosta material que se entranha em nós de vez enquanto, continuar de pé sem medo de caminhar.
Isto não faz com que pensemos a vida como uma tragédia grega ou um mar de frustrações onde o único barco onde embarcar é o Titanic. Não é isso. Até porque, se a vida fosse um porto, certamente cada um de nós teria muito onde embarcar. O mais importante é saber, seja por instinto ou cálculo estimado, eleger o barco certo. E, caso não se acerte à primeira, não perder a vontade de voltar ao porto é mais de meio caminho andado para se conseguir embarcar. Seja a nado, seja a remo. O principal na vida, neste caso, é não desistir. Resumindo e concluindo, desistir e lutar é quase a mesma coisa. E é para fortes.
Lembra-te sempre disto: Às vezes é preciso ser mais forte para desistir do que já não tem pernas para andar do que lutar por algo que parece não ter pernas. Caminhos, Barcos ou livros. É tudo a mesma coisa. As metáforas são diferentes, a vida vale sempre o mesmo: é única e é a tua: vais viver?

Com amor, 

Tempo.

segunda-feira, setembro 07, 2015

Perdida em ti


Todas as noites, antes de deitar, eu ainda sinto o teu cheiro nos lençóis que nunca mais tive coragem de colocar. Ainda permanece a imagem desfocada da tua mão sobre a minha. Ainda há raspas de limão e pétalas de rosas por tudo o que é canto – tu e essa tua mania de querer ser romântico.

Tenho a almofada cheia e a alma vazia: o que posso fazer para te ter de volta?
Hoje é só mais uma noite: uma das 365 noites em que já adormeci na ausência da tua presença. E, desde que partiste, nada mudou: continuo a desejar acordar ao teu lado, com aquele sorriso que me rasgava o peito: porque agora tudo o que me resta é um peito rasgado sem o teu sorriso. Aquele que fazias cada vez que eu dizia que ninguém fazia café como tu. Aquele que consigo ver nitidamente de olhos fechados como se ainda aqui estivesses.

Ainda tenho o teu relógio parado no meu pulso. Sabes para que serve? Para sentir que o tempo está parado e que em vez da vida ter-te roubado de mim, fui eu quem escolheu parar de viver para não te ver partir. Como podes ver ainda sou a mesma egoísta de sempre. Mas o que é amar senão ser covarde e egoísta? Aliás, eu sei (tu dizias) que o relógio só voltará a trabalhar no teu regresso. Mas, então, tu nunca mais voltaste. O que vou fazer a esse respeito? Diz-me! Diz-me quantas cordas terei eu de rasgar até que o meu coração volte a bater por um relógio que nunca voltará a pulsar.

Tenho a caixa do correio cheia de postais, de cartas que ficaram por ler e de abraços que ficaram por entregar. E por falar em lembranças, será que ainda te lembras da forma como nos completávamos? É que, não sei se o mundo sente o mesmo, mas eu continuo a tentar completar um puzzle sem fim: era nosso e agora foi-se.


Que mal há em duas pessoas que se amam e que querem ficar juntas para sempre? Raios partam quem criou em nós essa ideia de ser-se eterno quando a única certeza que temos é a de que caminhamos todos para o mesmo fim: a morte.

domingo, setembro 06, 2015

Faltas tu em mim todos os dias


Falta-me tudo menos a tua falta. Falta-me o ar, o er e o ir. Falta-me o ontem, o hoje e o amanhã. Falta-me o dia, a noite e a sombra que existe entre ambos. E, entre o tudo e o nada, faltas-me tu, a par da luz dos teus passos, do calor dos teus braços, da humidade dos teus lábios, e de todo o resto que resta de mim e de ti (de nós). Falta-me ainda, e agora mais do que nunca, a força  (e loucura) necessárias para continuar a viver na tua ausência. Essa falha que me consome, por dentro e por fora, enquanto única certeza de tudo.

E, por mais que eu queira, hoje ser forte é um prodígio. Viver sem ti é não viver. É avassalador ver tudo o que construímos, aos pedaços, espalhados pelas vitrinas da saudade como se fossem pólvora seca em tempo de guerra, onde o tempo repousava como quem se arrastava em tropeços constantes e o amor era um amuleto da sorte. 
E por falar em tropeços e amuletos da sorte, falta-me a tua mão a cada queda e o teu consentimento cada vez que tento acreditar em algo transcendente. 

E agora diz-me:
Como posso eu viver? Sem a luz dos teus passos, o calor dos teus braços...
Porque, quer queira quer não queira (e acredita que já não quis quantas vezes necessárias), para mim, viver é amar-te. E amar-te é tudo o que sei fazer enquanto alguém que vive. Mas, como amar-te ausente? Como ausentar-me desta dor sem saber amar-te de outra forma? 


Resta esperar que o tempo se arraste um pouco mais até que se esgotem todas as pilhas do mundo que fazem o relógio continuar a trabalhar. Esse relógio que carregas ao peito e cujos ponteiros só te levam, á medida que o tempo passa, para mais longe de mim. E longe de mim deixar que o tempo leve a única coisa que me faz viver: amar-te. 

sábado, agosto 09, 2014

Nos braços do tempo

"Corre!"
Estava a fazê-lo há horas. Já não sentia o oxigênio a percorrer o meu corpo, tanto quanto o sangue.
Correr, correr, correr. Continuava sem perceber o motivo pelo qual estava a fazê-lo, simplesmente sabia que sim, independentemente do motivo, existisse ou não. E eu conseguia senti-la. Aquela vontade incontrolada de querer fugir permanecia. Permanecia camuflada em adrenalina e consumia cada célula, cada átomo do meu corpo. Eu sentia também o medo. Aquele que justificava a velocidade com que eu corria, como quem foge de um passado de terror. E, no fundo, eu estava a fugir de tudo aquilo que não conseguia permitir-me ser.


Agora que corria sem destino, há procura de um entendimento que nunca mais chegava, agora que a vida me pregara esta partida e me empurrara para esta espécie de encruzilhada, agora eu teria de saber como lutar sem forças, há procura de um lugar, de um destino, de um espaço, de qualquer coisa.

Mas de repente parei. Muito antes de cair. Muito a tempo de sentir o abismo, amparada pelos braços quentes de quem chamara o meu nome muito depois de já não o conseguir ouvir. E então eu quis falar. 

Jasper? És tu? Onde estiveste este tempo todo? Não me deixes parada! Olha a luz! Sai, Sai, saiii...

Estas eram perguntas com as quais eu teria que viver até que as forças me permitissem falar. Até lá só queria conseguir respirar, muito antes de mergulhar na claridade. Muito depois de já ser tarde demais para o que quer que pudesse ter sido - dito, sentido ou feito. Se ao menos eu conseguisse dizer-lhe o quanto esperei por ele. O quanto desejei ter desejado nunca tê-lo deixado partido. 

Mas agora era tudo demasiado claro e vago para se ouvir o que quer que fosse. Era só eu, e nem havia braços, nem sinais de Jasper. Estava novamente sozinha. Parada no eterno. Entre o vazio e o vazio. Soubesse eu que o tempo era tão curto, teria corrido um pouco mais.

sexta-feira, agosto 08, 2014

De que são feitos os nossos corpos



Foi assim que aprendi a receber e abraçar a vida. Com os braços bem abertos. Com um sorriso nos lábios. Mas nem sempre isso acontece. Fraquejo, como toda gente. E, por mais que não queira e não faça questão, tenho momentos em que tudo isso se evapora. A determinação cede e dá lugar ao medo, e a todas as incertezas que nunca imaginamos vir a ter, mas que fazem parte de nós, tanto quanto os próprios órgãos. 
Ainda assim, todas as vezes em que fraquejei só fizeram de mim uma pessoa mais forte, porque se assim não o fosse, nunca me teria levantado. Queda após queda, dou por mim a emendar pedaços da minha conduta que até então pareciam corretos, claros e até bem lúcidos. Mas a vida faz-me perceber, tanto quanto o destino, que ambos são meus, ainda assim dependo deles. 

E o que é a vida senão isto? Poderemos, ou seremos capazes de viver eternamente gratos por aquilo que somos? Conseguiremos ser constantemente felizes? Eu já acreditei que sim, mas as circunstâncias da vida têm-me mostrado o contrário. É preciso ser gentil, ser forte e, acima de tudo, sermos nós próprios e aprendermos a amar o que somos. A ambição de sermos aquilo que não somos pode matar-nos. Eu aprendi a domesticar a minha, e apenas querer ser alguém. Alguém que existe muito para além dos vossos olhares, mas que ainda assim depende deles.

O que somos, afinal, senão espelhos de um reflexo manipulado pela nossa própria imaginação? Reflexo esse, que não existe além dos nossos olhos. Espelho esse que se fosse real, já se tinha partido.
O que somos, para onde vamos e o que nos move são factos que determinam o propósito da nossa existência.

sexta-feira, abril 18, 2014

A vida moldou-me

Havia de ter sido um dia normal. E, para meu engano, eu desejava tê-lo tido muito antes de pensar que o viria a desejar. A aparente vulgaridade daquele dia rapidamente se transformou na permanência de um futuro incerto, nunca antes ambicionado.
E ainda hoje, passadas algumas centenas de anos, pergunto-me porque teria a vida de escolher-me para tal fado.
É estranho. Porque ninguém sabe o que se encontra para além do "hoje". E por mais que se façam planos, que se tracem caminhos e se sonhem futuros, só a vida nos prepara, aos poucos, para o que realmente somos. 
Até eu, que sonhava mais do que os outros. Até eu que planeava ao minuto a minha vida e guardava-a em gavetas devidamente organizadas. Até eu que lutava pelos meus sonhos... até a mim a vida alterou o rumo da história, aparentemente planeada. 
A vida fez-me reformular todos os sonhos, alterar a cor de todas as gavetas e, principalmente, a vida ensinou-me que o passado não passa daquilo que a própria palavra define - passado. 
Cada vez que olho para trás apercebo-me de como somos todos iguais - frágeis, vulneráveis e sobreviventes.
Porque basta que a vida queira, e tudo o que temos desaparece, como se nunca nos tivera pertencido. 
Hoje é assim que me sinto - uma moldura da própria vida.

sexta-feira, março 14, 2014

À procura de achar-me

O vazio que sinto é tão grande que tragicamente me preenche. Sinto-me tão ausente de mim própria que é como se os passos não fossem meus, tanto quanto os traços do meu reflexo.
Hoje, ao abrir a janela, senti que o vento era suficientemente forte para destruir-me as lembranças – esses fragmentos distorcidos que compõem o meu passado.
E, cada vez que procuro, no horizonte, um motivo para voltar a acreditar no poder das palavras, deparo-me novamente com aquele vazio que, em certa medida, completa-me.
É como se a minha vida fosse um labirinto sem solução. E, por mais que tente querer voltar a tentar, parece que não há atalhos suficientemente perfeitos para fazerem-me querer sair do labirinto.
Procurarei eu por algo que não existe? Serei assim tão exigente ao ponto de não encontrar o caminho?

Há momentos na vida em que tudo parece perfeito. Mas há outros…

segunda-feira, janeiro 20, 2014

Entre o cansaço e a diferença

Ser diferente cansa. Tudo o que é difernte cansa. E eu. Eu sinto-me cansada. Mas, quem nunca se sentiu cansado um dia? 
A saturação da vida parece, agora, mais condensada do que nunca. Os dias parece que possuem 48 horas e as horas multiplicam-se em dobro. Muito mais do que aquilo que pensava suportar. Ainda assim, não penso desistir.
A consciência da realidade torna-me pedinte de uma inconsciência passada - aquela que me fazia crer na perfeição das atitudes, dos momentos, enfim, das coisas no seu sentido lato."A vida é mesmo assim" gritava o conformismo imposto pelos meus iguais, esse conformismo a que me acostumei sem nunca colocar em causa o que quer que fosse, até hoje. Porque haverei eu de descarregar em outrem o meu destino? Ou, por ventura, despojar o "que tiver de ser" nas esperanças do fado?
Não, deixei-me disso. 
Porque, embora esteja cansada de sentir cansaço, sinto que é assim que existo - a querer ficar bem com o que está mal, a acreditar no que ninguém acredita e a viver do que, simplesmente, não existe.
O preço da diferença paga-se caro, e eu tenho descoberto aos poucos quanto ele custa.
Mas, ainda assim (cansada) em momento algum, pensei em desistir.
Não fosse o sonho a minha razão de viver.

quinta-feira, janeiro 16, 2014

Porque o amor nunca morre

"Querida,
A chuva cai lá fora e o dia parece triste. No entanto, nada comparado com o vazio que me preenche. Sinto a tua falta e, ainda que aparentemente temporária, ela tornou-se eternamente dolorosa. Inicialmente, acreditava que tudo não passaria de um pesadelo e que, por mais penosa e injusta que fosse a tua partida, tu irias voltar. Os dias passaram-se entre lágrimas e sorrisos forçados, contudo, tu continuas longe, num lugar incerto e misterioso. Prometi ser o pirata do teu tesouro, o capitão do teu navio. Mas, e agora? Como farei sem mapa? Sem mar por onde navegar?

As águas onde juntos mergulhávamos secaram e, as folhas do outono já dançam com o vento. O calor tórrido do verão congelou com o frio nas nevadas e o meu coração ardeu e partiu, junto com a tua alma.

Não sei ainda o que vou fazer quando tiver que sair lá fora: o que dizer, o que responder, como agir. Pensei que conseguiria viver sem ti. E, mais uma vez, estive enganado. Encontrei no recanto do meu quarto, aquele que um dia foi nosso, um bom amigo: o teu diário. Pensei que estas coisas fossem apenas para os deprimidos e parece que acertei. Deprimido ou não, a única coisa que consigo fazer, para além de respirar e desejar-te, é escrever.

P.S. Onde quer que tu estejas, com quem quer que caminhes, se ainda me amas, tu vais voltar. "

sexta-feira, dezembro 20, 2013

Onde cabem os sonhos?



É engraçado como a vida nos ultrapassa e nos surpreende. 
Da mesma forma que, enquanto o tempo passa, vamos sonhando e desejando o que, antes, poderia parecer descabido e intemporal - as ambições mudam e as metas também. E, à medida que crescemos vemos portas, tão facilmente se abrindo, da mesma forma que se fecham para nunca mais abrir. Depois existem aquelas cujo destino é incerto e impensado mas que, por tamanha controversidade, permanecem na memória até que a gente se convença do contrário daquilo que desejávamos que acontecesse. 
A vida é assim - um livro, um barco, um oceano de sonhos e de ilusões cujo tempo determina o próprio tempo para a "hora certa" de determinados acontecimentos - para que as portas se fechem e as janelas se abram, do mesmo modo que alguém possa entrar e ficar ou sair. 
A minha vida é isto - um sonho cujo fado é a minha própria realização, como alguém que vive com o propósito de chegar o mais longe possível. Por algum motivo se justifique que me digam que "não és deste mundo". Talvez tenham razão, ou talvez estejam todos errados. 
O que sei, de facto, é que jamais desistirei dos meu sonhos, tanto quanto todos aqueles que acreditam na força dos mesmos, custem o preço que custarem - até que todas as portas se fechem haverá, certamente, todos os motivos para abrir todas as janelas e lutar pelos melhores tesouros. 
Diz-se que na vida, nem tudo pertence ou depende de nós próprios, embora eu acredite no oposto. Mas, e o destino?
Quem caminha sobre os sonhos saberá sempre o destino dos seus passos - acorda.

quinta-feira, dezembro 19, 2013

Solitariamente acompanhada


Deixei tudo para trás. 
Rasguei cada farrapo da minha memória e impedi-me de reviver a sombra do que um dia me uniu a ti. Queimei tudo, inclusive as cartas que nunca me escreveste. 
Saí pela porta do quarto que nunca existiu, com o coração entre as mãos, e como quem deixa de existir, embriaguei-me pela rua fora, na esperança perdida de encontrar um sentido para coisa nenhuma. 
Jamais me sentira assim - ausente de alvoroços.
O vazio preenchia a profundidade do que restava da minha alma. Tanto quanto as folhas cobriam o chão que, à minha passagem, tornavam-se subitamente silenciosas. 
Nunca antes tinha tido tempo para contemplar o sabor do vento - tão amargamente solitário. Mas não tanto quanto o sabor da tua ausência. Não tanto quanto a confirmação de cada engano - todas aquelas aparências que nunca existiram - senão aos meus olhos, cegamente enganados. 
Na verdade, a vida mostrava-me, agora, em primeira mão, o sabor de perder a razão para seguir uma vida de perfeitas inseguranças. 
Sentia-me disposta a continuar o que nunca tinha começado. Sem futuro, sem presente, sem passado. 
Eu e o vazio do tempo; 
Eu e a sapidez amarga de idolatrar o errado; 
Eu e o fardo de ser-se perdidamente apaixonado pela essência do que é vazio. 
Enfim, vou procurar se me encontro e devolver-me ao vago de uma tela em branco. 
E se, por engano, tudo isto vos parecer demência, procurem uma razão credível para amar incondicionalmente o que vos parece desumano.

quarta-feira, novembro 20, 2013

Até sempre Julieta - minha Juju!

Esta poderia ser apenas mais uma foto de uma gata como as que já tive - daquelas que nascem aqui em casa e que crescem e com as quais vivemos sem percepcionar a morte, ou pensar em tal.
Mas, desta vez é diferente. A Julieta, juju para os amigos, é uma gata que salvei num quentinho dia de Agosto de 2011. Esta foi-me entregue por uma senhora que a encontrou, no parque da cidade de Paredes, com a patinha esquerda partida e muito mal tratada. Vinha numa caixa com um paninho azul bebe - lembro-me como se fosse hoje.
Aquele olhar doce e curioso cativou-me desde logo - e, embora eu me apaixone por qualquer animal com extrema facilidade, o caso da Julieta sensibilizou-me particularmente e quis, desde logo, poder ficar com ela. A sua reabilitação cá em casa foi rápida e divertida. Ela é, quer dizer, era uma gatinha muito sociável, se é que me faço entender. 
Ao contrário das outras gatas, ela requeria muita atenção da minha parte e era muito mimela - daí o apelido juju. Até o meu pai, alguém que não gosta de gatos, simpatizou com a pequena Julieta, a juju. Além disso ela nunca cresceu muito e sempre foi a "nossa" pequenina juju. Até a Kitty, a minha cadela, dormia com ela! A Juju era a gatinha mais doce e meiga aqui de casa. 
Além disso, e ao contrário da maioria dos gatos, ela era muito altruísta - não se importava de deixar que os outros se alimentassem e, só no fim, caso sobrasse alguma coisa, alimentava-se. 
A Julieta foi mãe pela primeira vez nesta última primavera. Lembro-me que estava prestes a adormecer quando a minha mãe me acordou a dizer:
-Vai lá fora ver a Julieta que eu acho que ela vai ter os bebes!
Fiquei tão entusiasmada que acho que saí a correr descalça porta fora e só me lembro da imagem dela no seu cestinho a lamber-se toda e, quando me viu, começou a miar como se suplicasse ajuda. E assim o fiz - fui a auxiliar de parto da Julieta e estive sempre ao lado dela, até ao fim. O Sortudo foi o único que sobreviveu (daí o nome). 
Ambos tinham uma ligação muito forte e, como a fotografia percepciona, a Julieta sempre foi uma mãe atenciosa. 
Posso garantir que embora curta, a vida da Julieta foi recheada de amor e de coisas boas. 
O que acontece é que a minha Juju, a minha princesa, desapareceu, fazia hoje uma semana e dois dias. Fazia porque a encontrei, faz agora pouco tempo, morta num terreno ao lado de minha casa.
A Julieta estava grávida e demonstrava sinais de que teria os bebes em pouco tempo. Se foi isso que a matou ou outra coisa qualquer não sei mas sinto que motivos fortes para eu sorrir partiram com ela - hoje. 
Vocês, que estão a ler isto, podem achar patético mas para quem tem animais de estimação e está com eles todos os dias, percebe perfeitamente o que eu digo. 
A Juju era a minha pequenina, aquela que, todos os dias, quando eu chegava da universidade, vinha a correr com a kitty, ambas empolgadas e super felizes por me ver. 
Nunca pensei que a morte dela me deixasse neste estado de puro desalento mas é certo que sinto o coração aos pedaços e, patético ou não, as lágrimas ainda não cessaram. 
Procurei dias a fio por ela na esperança de, a cada esquina, a cada nascer do dia, a cada saco de comida que eu agitava, fosse como fosse,eu esperava que a Juju voltasse apenas de uma ressaca de uma fujidinha qualquer - mas não. A Juju não voltou, pelo menos da forma que eu esperava. 
A morte nunca é fácil de aceitar, muito menos quando é "alguém" que nos é próximo e por quem nutrimos um amor incondicional.
Estão a ver aquele ser que nos enche o coração só por existir na nossa vida? A Juju era assim!

terça-feira, outubro 08, 2013

Olhos para ver, alma para sentir, coração para enganar.



Sempre ouvi dizer que julgar os outros com mentiras incertas é mais fácil que deitar mãos ao trabalho e descobrir a verdade. Felizmente, aprendi, desde muito cedo, a separar aqueles de quem gosto, com quem, mais por educação do que por vontade, convivo e partilho momentos vulgares do meu quotidiano, daqueles que efectivamente são verdadeiramente importantes para mim, com os quais sei que posso contar até à morte. Agora percebo quanto a vida se deslumbra, quanto esta perde encantamento aos nosso olhos à medida que os anos passam.  Talvez porque todos nascemos aparentemente cegos, incapazes de ver a realidade da qual fazemos parte, onde as princesas são bruxas e a maldade é abundantemente adquirida.
Afortunadamente, caminhamos todos contra o vento, acompanhados pelas más energias daqueles que, miseravelmente, procuram na desgraça dos outros, a felicidade que nunca alcançaram. E encontram. Pois é certo. É certo que estou mais triste do que nunca. É tão certo que sinto ódio de alguém que nem sequer conheço. Todavia, estranho seria se não me sentisse assim, pois sou humana. Mas tenho âncoras por onde subir e mãos que me ajudem a levantar. E, ao contrário do que aconteceu hoje, eu acredito que amanhã o sol vai nascer para mim com uma intensidade diferente. Pois, por mais que me sinta sozinha agora, sei que há sempre alguém que me acompanha, alguém que, embora fisicamente ausente, abraça-me mesmo sem que eu o sinta, e me ausenta da dor quando eu sinto que ela, simplesmente, foi-se esporadicamente, quando não foi.  Porque hoje, sinto falta de quem já não está para ouvir-me. Sou teimosa, poderia escolher outra pessoa, mas ninguém é insubstituível. Que culpa tenho eu? 

Talvez pense demais, sinta demais, talvez faça demais. Pelo menos, faço alguma coisa. Não ando a passear vendo os outros viver. Fácil ir ao cinema, sentar confortavelmente numa cadeira e comer pipocas vendo a desgraça alheia passar na frente dos nossos olhos. A vida me ensinou a participar no filme, não a assistir a ele.
Vou deitar-me, abraçar a almofada e chorar até que as lágrimas se esgotem ou me afogue nas mesmas. Porque nada, para além do que sinto, faz qualquer tipo de sentido agora.

domingo, outubro 06, 2013

Desamor - o sabor da traição


Passo a passo, com o coração entre as mãos e alma a cair aos pedaços, humilhada pelas lembranças humildes de quem já soube vive, procuro, nas pedras da calçada, na entranha das folhas do outono e, até, nas formas abstractas das nuvens, o significado, a razão e o sentido para tamanho sofrimento, para desgraçada sina. Vejo-me descalça pelos meus próprios pés, despida pelas minhas próprias mãos e ausente de qualquer tipo de munição, de reste de esperança. E, ainda que perdida, sigo, a passos lentos mas firmes, o caminho da incerteza - sem um único vestido preto. Todas as promessas, todas as certezas e todas as flores, tudo isso, fica para trás, como o rasto pálido do meu passado ilusório. 

Respira é a única coisa a que me obrigo a fazer. A visão falha-me e sinto-me imunda, não tanto quanto o meu coração - esfaqueado e repartido pelo horizonte brilhante que se afogou no vazio do incerto. E assim se cria o desumano, se atropela o sonho e se exalta a estupidez da fidelidade. Perdi o coração e a alma para um homem que me perdeu sem nunca merecer ter-me tido. Dei tudo de mim e sem nada fiquei. O que ganhei? Dias perfeitos que não passaram de um teatro sem aplausos. Carros, vestidos, jóias e um amor de cinema cujo fim foi um grande best-seller dramático. O que fica do que foi? Raiva, ódio e todo o leque de sentimentos que compõe a orquestra do devaneio, onde o diabo descansa por entre os desgraçados. 
E assim se resume o amor, a uma peça de fruta. Uma maça,por exemplo, o homem escolhe com o olhar de quem vai possuir, rasga a pele e saboreia o mais intimo possível, e depois? quando o sabor amargo se aproxima do caroço, quando não há mais nada para descobrir, para saborear, para possuir - o homem cospe e deita fora, como se aquela fosse apenas mais uma. 
Se ao menos fosse eu a maça vermelha da branca de neve, aquele maldito merecia pior. 

sexta-feira, julho 12, 2013

Pedaços


Não sei ao certo se o que escreverei fará qualquer tipo de sentido mas, de facto, é a realidade que se atravessa em mim. Ao que parece, tenho duas vidas. Melhor - tenho uma vida dupla. A primeira é a mais digna, a mais "correcta" e na qual me cinjo de regras e esforço-me para cumprir uma meta traçada de sonhos que, estupidamente, são vividos na minha segunda vida. Uma vida completamente distante da primeira. A segunda é mais simples, mais "do coração e da alma", é na qual me sinto mais "eu". As consequências dos meus actos são punidas com sabedoria e com dignidade. Posso andar descalça pela cidade que ninguém me olha como se não tivesse dinheiro para um par de sapatos. Posso ir a um restaurante Japonês e comer com as mãos que ninguém, naquela sala, me repugnará e me acusará de falta de modos. Posso estar sozinha na companhia de muita gente sem que ninguém se questione. 
É certo que o mundo onde vivo, realmente, é o primeiro. Com a significativa diferença de que, literalmente, são mais as vezes que me sinto auspiciosa no segundo do que no primeiro. Isto porque, num deles eu posso ser o que realmente quero, fazer o que sinto sem medo do que me possa acontecer a seguir. Porquê? Porque basta abrir os olhos para que tudo acabe e fechá-los, todas as noites, para que ele me volte a abraçar. Tenho, todos os dias, a oportunidade de mergulhar em traços perfeitos onde toda gente quer caminhar.
Tenho dois mundos onde viver e sinto, honestamente, que o meu mundo é todas as noites e não todos os dias.
Mais tarde ou mais cedo, um acabará por extinguir-se. Espero que seja o primeiro, onde toda gente aponta o dedo como se fosse perfeito e onde a morte magoa e as pessoas agem como se fossem viver eternamente quando, totalmente, estão erradas.
O que sinto, de facto, é que todos temos dois mundos, duas vidas, duas formas de agir, de parecer e de prevalecer. Contudo, apenas uma alma e um coração, muitas vezes, partidos em dois, mas singulares na forma de sentir e, principalmente, de amar.

terça-feira, junho 04, 2013

A vida do avesso em 30 segundos

Aquele tempo de espera estava a matar-me por dentro. O «tic-tac» do relógio multiplicava-se na sequência de um batimento cardíaco que parecia obrigar o meu coração a saltar do peito, forçando-me a tirar o relógio do pulso. A sala estava repleta de gente que esperava, hipoteticamente, o mesmo que eu: Noticias. Fossem elas quais fossem, o rosto desesperado de todos os que preenchiam a sala reflectia-se na ânsia desmoralizadora de recebê-las. Cada vez que uma porta se abria, cada vez que alguém suspirava mais forte ou qualquer tipo de ruído que soasse a novidade, todos se centravam e erguiam o olhar na procura constante de algo que os levasse a uma resposta. O calor humano era cada vez mais intenso e, junto com o desânimo, começava a estampar-se nos rostos a impotência de esperar muito mais. Uma porta abriu-se mas eu esperei, com medo e desânimo, que não fossem notícias para mim. Para meu temor, os passos erguiam-se na minha direcção até que consegui ver uns sapatos pretos, brilhantes como o luar, a pararem mesmo junto a mim. A voz educada da mulher loira de olhos azuis fez-me estremecer de receio.

– Trago-lhe notícias. - Disse ela.
Limitei-me a limpar as lágrimas envergonhadas que me escorriam pelo rosto e, numa lufada de oxigénio, procurei arrancar, das entranhas do meu corpo, toda a força existente dentro dele para aguentar toda a pressão daquele momento.
- Reconhece esta fotografia? – Seguida destas palavras a enfermeira ergueu, na minha direcção, a fotografia onde ambos, eu e o Tomás, estávamos a comer um gelado no nosso último dia de férias, em cuba.
- Sim, reconheço perfeitamente. – Queria ter forças para perguntar-lhe o que realmente queria saber mas, de facto, a ausência destas parecia cada vez mais real.
A enfermeira aninhou-se, junto aos meus joelhos e, com os olhos cheios de lágrimas, disse-me:
-Juro-lhe que nunca fizemos tanto para salvar uma pessoa. Ele lutou como nenhum ser humano tinha lutado, antes, pela vida. Contudo, não sobreviveu aos ferimentos. Lamento muito. Antes de sucumbir exclamou o nome Beatriz.

Beatriz era o nome da nossa futura filha, a que eu ainda carregava no corpo. Agora, era tudo que me restava, como fruto de uma sombra – a sombra de um passado perfeito que, em momentos breves, se tornara num autêntico pesadelo.

A enfermeira abraçou-me como se sofresse comigo e embalou o meu pranto até que eu perdesse todas as forças para continuar a chorar. A morte era uma novidade completamente prematura para mim. 

quinta-feira, maio 16, 2013

O preço da autenticidade




A ousadia de ser diferente pode levar-nos à loucura. A comodidade da igualdade torna-nos análogos e vulgares. A segunda pode ser mais segura, mais confortável e preenchida pela companhia de quem nos idolatra, consumindo-nos como símbolos e exemplos a seguir. A primeira, embora possivelmente mais solitária, difícil e aparentemente árdua e trabalhosa, obriga-nos à autenticidade e a mostrar valentia que, como é óbvio, mais tarde ou mais cedo é compensada pela felicidade momentânea. Cabe a cada um decidir se quer ser apenas mais um a caminhar por ruas já construídas e caminhos já decalcados ou permanecer na memória dos comuns como um louco que traçou o seu próprio caminho e desenhou o seu próprio mapa com a promessa de um futuro nunca antes percorrido.