sexta-feira, dezembro 20, 2013

Onde cabem os sonhos?



É engraçado como a vida nos ultrapassa e nos surpreende. 
Da mesma forma que, enquanto o tempo passa, vamos sonhando e desejando o que, antes, poderia parecer descabido e intemporal - as ambições mudam e as metas também. E, à medida que crescemos vemos portas, tão facilmente se abrindo, da mesma forma que se fecham para nunca mais abrir. Depois existem aquelas cujo destino é incerto e impensado mas que, por tamanha controversidade, permanecem na memória até que a gente se convença do contrário daquilo que desejávamos que acontecesse. 
A vida é assim - um livro, um barco, um oceano de sonhos e de ilusões cujo tempo determina o próprio tempo para a "hora certa" de determinados acontecimentos - para que as portas se fechem e as janelas se abram, do mesmo modo que alguém possa entrar e ficar ou sair. 
A minha vida é isto - um sonho cujo fado é a minha própria realização, como alguém que vive com o propósito de chegar o mais longe possível. Por algum motivo se justifique que me digam que "não és deste mundo". Talvez tenham razão, ou talvez estejam todos errados. 
O que sei, de facto, é que jamais desistirei dos meu sonhos, tanto quanto todos aqueles que acreditam na força dos mesmos, custem o preço que custarem - até que todas as portas se fechem haverá, certamente, todos os motivos para abrir todas as janelas e lutar pelos melhores tesouros. 
Diz-se que na vida, nem tudo pertence ou depende de nós próprios, embora eu acredite no oposto. Mas, e o destino?
Quem caminha sobre os sonhos saberá sempre o destino dos seus passos - acorda.

quinta-feira, dezembro 19, 2013

Solitariamente acompanhada


Deixei tudo para trás. 
Rasguei cada farrapo da minha memória e impedi-me de reviver a sombra do que um dia me uniu a ti. Queimei tudo, inclusive as cartas que nunca me escreveste. 
Saí pela porta do quarto que nunca existiu, com o coração entre as mãos, e como quem deixa de existir, embriaguei-me pela rua fora, na esperança perdida de encontrar um sentido para coisa nenhuma. 
Jamais me sentira assim - ausente de alvoroços.
O vazio preenchia a profundidade do que restava da minha alma. Tanto quanto as folhas cobriam o chão que, à minha passagem, tornavam-se subitamente silenciosas. 
Nunca antes tinha tido tempo para contemplar o sabor do vento - tão amargamente solitário. Mas não tanto quanto o sabor da tua ausência. Não tanto quanto a confirmação de cada engano - todas aquelas aparências que nunca existiram - senão aos meus olhos, cegamente enganados. 
Na verdade, a vida mostrava-me, agora, em primeira mão, o sabor de perder a razão para seguir uma vida de perfeitas inseguranças. 
Sentia-me disposta a continuar o que nunca tinha começado. Sem futuro, sem presente, sem passado. 
Eu e o vazio do tempo; 
Eu e a sapidez amarga de idolatrar o errado; 
Eu e o fardo de ser-se perdidamente apaixonado pela essência do que é vazio. 
Enfim, vou procurar se me encontro e devolver-me ao vago de uma tela em branco. 
E se, por engano, tudo isto vos parecer demência, procurem uma razão credível para amar incondicionalmente o que vos parece desumano.