sexta-feira, julho 12, 2013

Pedaços


Não sei ao certo se o que escreverei fará qualquer tipo de sentido mas, de facto, é a realidade que se atravessa em mim. Ao que parece, tenho duas vidas. Melhor - tenho uma vida dupla. A primeira é a mais digna, a mais "correcta" e na qual me cinjo de regras e esforço-me para cumprir uma meta traçada de sonhos que, estupidamente, são vividos na minha segunda vida. Uma vida completamente distante da primeira. A segunda é mais simples, mais "do coração e da alma", é na qual me sinto mais "eu". As consequências dos meus actos são punidas com sabedoria e com dignidade. Posso andar descalça pela cidade que ninguém me olha como se não tivesse dinheiro para um par de sapatos. Posso ir a um restaurante Japonês e comer com as mãos que ninguém, naquela sala, me repugnará e me acusará de falta de modos. Posso estar sozinha na companhia de muita gente sem que ninguém se questione. 
É certo que o mundo onde vivo, realmente, é o primeiro. Com a significativa diferença de que, literalmente, são mais as vezes que me sinto auspiciosa no segundo do que no primeiro. Isto porque, num deles eu posso ser o que realmente quero, fazer o que sinto sem medo do que me possa acontecer a seguir. Porquê? Porque basta abrir os olhos para que tudo acabe e fechá-los, todas as noites, para que ele me volte a abraçar. Tenho, todos os dias, a oportunidade de mergulhar em traços perfeitos onde toda gente quer caminhar.
Tenho dois mundos onde viver e sinto, honestamente, que o meu mundo é todas as noites e não todos os dias.
Mais tarde ou mais cedo, um acabará por extinguir-se. Espero que seja o primeiro, onde toda gente aponta o dedo como se fosse perfeito e onde a morte magoa e as pessoas agem como se fossem viver eternamente quando, totalmente, estão erradas.
O que sinto, de facto, é que todos temos dois mundos, duas vidas, duas formas de agir, de parecer e de prevalecer. Contudo, apenas uma alma e um coração, muitas vezes, partidos em dois, mas singulares na forma de sentir e, principalmente, de amar.

terça-feira, junho 04, 2013

A vida do avesso em 30 segundos

Aquele tempo de espera estava a matar-me por dentro. O «tic-tac» do relógio multiplicava-se na sequência de um batimento cardíaco que parecia obrigar o meu coração a saltar do peito, forçando-me a tirar o relógio do pulso. A sala estava repleta de gente que esperava, hipoteticamente, o mesmo que eu: Noticias. Fossem elas quais fossem, o rosto desesperado de todos os que preenchiam a sala reflectia-se na ânsia desmoralizadora de recebê-las. Cada vez que uma porta se abria, cada vez que alguém suspirava mais forte ou qualquer tipo de ruído que soasse a novidade, todos se centravam e erguiam o olhar na procura constante de algo que os levasse a uma resposta. O calor humano era cada vez mais intenso e, junto com o desânimo, começava a estampar-se nos rostos a impotência de esperar muito mais. Uma porta abriu-se mas eu esperei, com medo e desânimo, que não fossem notícias para mim. Para meu temor, os passos erguiam-se na minha direcção até que consegui ver uns sapatos pretos, brilhantes como o luar, a pararem mesmo junto a mim. A voz educada da mulher loira de olhos azuis fez-me estremecer de receio.

– Trago-lhe notícias. - Disse ela.
Limitei-me a limpar as lágrimas envergonhadas que me escorriam pelo rosto e, numa lufada de oxigénio, procurei arrancar, das entranhas do meu corpo, toda a força existente dentro dele para aguentar toda a pressão daquele momento.
- Reconhece esta fotografia? – Seguida destas palavras a enfermeira ergueu, na minha direcção, a fotografia onde ambos, eu e o Tomás, estávamos a comer um gelado no nosso último dia de férias, em cuba.
- Sim, reconheço perfeitamente. – Queria ter forças para perguntar-lhe o que realmente queria saber mas, de facto, a ausência destas parecia cada vez mais real.
A enfermeira aninhou-se, junto aos meus joelhos e, com os olhos cheios de lágrimas, disse-me:
-Juro-lhe que nunca fizemos tanto para salvar uma pessoa. Ele lutou como nenhum ser humano tinha lutado, antes, pela vida. Contudo, não sobreviveu aos ferimentos. Lamento muito. Antes de sucumbir exclamou o nome Beatriz.

Beatriz era o nome da nossa futura filha, a que eu ainda carregava no corpo. Agora, era tudo que me restava, como fruto de uma sombra – a sombra de um passado perfeito que, em momentos breves, se tornara num autêntico pesadelo.

A enfermeira abraçou-me como se sofresse comigo e embalou o meu pranto até que eu perdesse todas as forças para continuar a chorar. A morte era uma novidade completamente prematura para mim. 

quinta-feira, maio 16, 2013

O preço da autenticidade




A ousadia de ser diferente pode levar-nos à loucura. A comodidade da igualdade torna-nos análogos e vulgares. A segunda pode ser mais segura, mais confortável e preenchida pela companhia de quem nos idolatra, consumindo-nos como símbolos e exemplos a seguir. A primeira, embora possivelmente mais solitária, difícil e aparentemente árdua e trabalhosa, obriga-nos à autenticidade e a mostrar valentia que, como é óbvio, mais tarde ou mais cedo é compensada pela felicidade momentânea. Cabe a cada um decidir se quer ser apenas mais um a caminhar por ruas já construídas e caminhos já decalcados ou permanecer na memória dos comuns como um louco que traçou o seu próprio caminho e desenhou o seu próprio mapa com a promessa de um futuro nunca antes percorrido.