segunda-feira, setembro 07, 2015

Perdida em ti


Todas as noites, antes de deitar, eu ainda sinto o teu cheiro nos lençóis que nunca mais tive coragem de colocar. Ainda permanece a imagem desfocada da tua mão sobre a minha. Ainda há raspas de limão e pétalas de rosas por tudo o que é canto – tu e essa tua mania de querer ser romântico.

Tenho a almofada cheia e a alma vazia: o que posso fazer para te ter de volta?
Hoje é só mais uma noite: uma das 365 noites em que já adormeci na ausência da tua presença. E, desde que partiste, nada mudou: continuo a desejar acordar ao teu lado, com aquele sorriso que me rasgava o peito: porque agora tudo o que me resta é um peito rasgado sem o teu sorriso. Aquele que fazias cada vez que eu dizia que ninguém fazia café como tu. Aquele que consigo ver nitidamente de olhos fechados como se ainda aqui estivesses.

Ainda tenho o teu relógio parado no meu pulso. Sabes para que serve? Para sentir que o tempo está parado e que em vez da vida ter-te roubado de mim, fui eu quem escolheu parar de viver para não te ver partir. Como podes ver ainda sou a mesma egoísta de sempre. Mas o que é amar senão ser covarde e egoísta? Aliás, eu sei (tu dizias) que o relógio só voltará a trabalhar no teu regresso. Mas, então, tu nunca mais voltaste. O que vou fazer a esse respeito? Diz-me! Diz-me quantas cordas terei eu de rasgar até que o meu coração volte a bater por um relógio que nunca voltará a pulsar.

Tenho a caixa do correio cheia de postais, de cartas que ficaram por ler e de abraços que ficaram por entregar. E por falar em lembranças, será que ainda te lembras da forma como nos completávamos? É que, não sei se o mundo sente o mesmo, mas eu continuo a tentar completar um puzzle sem fim: era nosso e agora foi-se.


Que mal há em duas pessoas que se amam e que querem ficar juntas para sempre? Raios partam quem criou em nós essa ideia de ser-se eterno quando a única certeza que temos é a de que caminhamos todos para o mesmo fim: a morte.

domingo, setembro 06, 2015

Faltas tu em mim todos os dias


Falta-me tudo menos a tua falta. Falta-me o ar, o er e o ir. Falta-me o ontem, o hoje e o amanhã. Falta-me o dia, a noite e a sombra que existe entre ambos. E, entre o tudo e o nada, faltas-me tu, a par da luz dos teus passos, do calor dos teus braços, da humidade dos teus lábios, e de todo o resto que resta de mim e de ti (de nós). Falta-me ainda, e agora mais do que nunca, a força  (e loucura) necessárias para continuar a viver na tua ausência. Essa falha que me consome, por dentro e por fora, enquanto única certeza de tudo.

E, por mais que eu queira, hoje ser forte é um prodígio. Viver sem ti é não viver. É avassalador ver tudo o que construímos, aos pedaços, espalhados pelas vitrinas da saudade como se fossem pólvora seca em tempo de guerra, onde o tempo repousava como quem se arrastava em tropeços constantes e o amor era um amuleto da sorte. 
E por falar em tropeços e amuletos da sorte, falta-me a tua mão a cada queda e o teu consentimento cada vez que tento acreditar em algo transcendente. 

E agora diz-me:
Como posso eu viver? Sem a luz dos teus passos, o calor dos teus braços...
Porque, quer queira quer não queira (e acredita que já não quis quantas vezes necessárias), para mim, viver é amar-te. E amar-te é tudo o que sei fazer enquanto alguém que vive. Mas, como amar-te ausente? Como ausentar-me desta dor sem saber amar-te de outra forma? 


Resta esperar que o tempo se arraste um pouco mais até que se esgotem todas as pilhas do mundo que fazem o relógio continuar a trabalhar. Esse relógio que carregas ao peito e cujos ponteiros só te levam, á medida que o tempo passa, para mais longe de mim. E longe de mim deixar que o tempo leve a única coisa que me faz viver: amar-te. 

sábado, agosto 09, 2014

Nos braços do tempo

"Corre!"
Estava a fazê-lo há horas. Já não sentia o oxigênio a percorrer o meu corpo, tanto quanto o sangue.
Correr, correr, correr. Continuava sem perceber o motivo pelo qual estava a fazê-lo, simplesmente sabia que sim, independentemente do motivo, existisse ou não. E eu conseguia senti-la. Aquela vontade incontrolada de querer fugir permanecia. Permanecia camuflada em adrenalina e consumia cada célula, cada átomo do meu corpo. Eu sentia também o medo. Aquele que justificava a velocidade com que eu corria, como quem foge de um passado de terror. E, no fundo, eu estava a fugir de tudo aquilo que não conseguia permitir-me ser.


Agora que corria sem destino, há procura de um entendimento que nunca mais chegava, agora que a vida me pregara esta partida e me empurrara para esta espécie de encruzilhada, agora eu teria de saber como lutar sem forças, há procura de um lugar, de um destino, de um espaço, de qualquer coisa.

Mas de repente parei. Muito antes de cair. Muito a tempo de sentir o abismo, amparada pelos braços quentes de quem chamara o meu nome muito depois de já não o conseguir ouvir. E então eu quis falar. 

Jasper? És tu? Onde estiveste este tempo todo? Não me deixes parada! Olha a luz! Sai, Sai, saiii...

Estas eram perguntas com as quais eu teria que viver até que as forças me permitissem falar. Até lá só queria conseguir respirar, muito antes de mergulhar na claridade. Muito depois de já ser tarde demais para o que quer que pudesse ter sido - dito, sentido ou feito. Se ao menos eu conseguisse dizer-lhe o quanto esperei por ele. O quanto desejei ter desejado nunca tê-lo deixado partido. 

Mas agora era tudo demasiado claro e vago para se ouvir o que quer que fosse. Era só eu, e nem havia braços, nem sinais de Jasper. Estava novamente sozinha. Parada no eterno. Entre o vazio e o vazio. Soubesse eu que o tempo era tão curto, teria corrido um pouco mais.