sexta-feira, agosto 08, 2014

De que são feitos os nossos corpos



Foi assim que aprendi a receber e abraçar a vida. Com os braços bem abertos. Com um sorriso nos lábios. Mas nem sempre isso acontece. Fraquejo, como toda gente. E, por mais que não queira e não faça questão, tenho momentos em que tudo isso se evapora. A determinação cede e dá lugar ao medo, e a todas as incertezas que nunca imaginamos vir a ter, mas que fazem parte de nós, tanto quanto os próprios órgãos. 
Ainda assim, todas as vezes em que fraquejei só fizeram de mim uma pessoa mais forte, porque se assim não o fosse, nunca me teria levantado. Queda após queda, dou por mim a emendar pedaços da minha conduta que até então pareciam corretos, claros e até bem lúcidos. Mas a vida faz-me perceber, tanto quanto o destino, que ambos são meus, ainda assim dependo deles. 

E o que é a vida senão isto? Poderemos, ou seremos capazes de viver eternamente gratos por aquilo que somos? Conseguiremos ser constantemente felizes? Eu já acreditei que sim, mas as circunstâncias da vida têm-me mostrado o contrário. É preciso ser gentil, ser forte e, acima de tudo, sermos nós próprios e aprendermos a amar o que somos. A ambição de sermos aquilo que não somos pode matar-nos. Eu aprendi a domesticar a minha, e apenas querer ser alguém. Alguém que existe muito para além dos vossos olhares, mas que ainda assim depende deles.

O que somos, afinal, senão espelhos de um reflexo manipulado pela nossa própria imaginação? Reflexo esse, que não existe além dos nossos olhos. Espelho esse que se fosse real, já se tinha partido.
O que somos, para onde vamos e o que nos move são factos que determinam o propósito da nossa existência.

sexta-feira, abril 18, 2014

A vida moldou-me

Havia de ter sido um dia normal. E, para meu engano, eu desejava tê-lo tido muito antes de pensar que o viria a desejar. A aparente vulgaridade daquele dia rapidamente se transformou na permanência de um futuro incerto, nunca antes ambicionado.
E ainda hoje, passadas algumas centenas de anos, pergunto-me porque teria a vida de escolher-me para tal fado.
É estranho. Porque ninguém sabe o que se encontra para além do "hoje". E por mais que se façam planos, que se tracem caminhos e se sonhem futuros, só a vida nos prepara, aos poucos, para o que realmente somos. 
Até eu, que sonhava mais do que os outros. Até eu que planeava ao minuto a minha vida e guardava-a em gavetas devidamente organizadas. Até eu que lutava pelos meus sonhos... até a mim a vida alterou o rumo da história, aparentemente planeada. 
A vida fez-me reformular todos os sonhos, alterar a cor de todas as gavetas e, principalmente, a vida ensinou-me que o passado não passa daquilo que a própria palavra define - passado. 
Cada vez que olho para trás apercebo-me de como somos todos iguais - frágeis, vulneráveis e sobreviventes.
Porque basta que a vida queira, e tudo o que temos desaparece, como se nunca nos tivera pertencido. 
Hoje é assim que me sinto - uma moldura da própria vida.

sexta-feira, março 14, 2014

À procura de achar-me

O vazio que sinto é tão grande que tragicamente me preenche. Sinto-me tão ausente de mim própria que é como se os passos não fossem meus, tanto quanto os traços do meu reflexo.
Hoje, ao abrir a janela, senti que o vento era suficientemente forte para destruir-me as lembranças – esses fragmentos distorcidos que compõem o meu passado.
E, cada vez que procuro, no horizonte, um motivo para voltar a acreditar no poder das palavras, deparo-me novamente com aquele vazio que, em certa medida, completa-me.
É como se a minha vida fosse um labirinto sem solução. E, por mais que tente querer voltar a tentar, parece que não há atalhos suficientemente perfeitos para fazerem-me querer sair do labirinto.
Procurarei eu por algo que não existe? Serei assim tão exigente ao ponto de não encontrar o caminho?

Há momentos na vida em que tudo parece perfeito. Mas há outros…