quinta-feira, dezembro 19, 2013

Solitariamente acompanhada


Deixei tudo para trás. 
Rasguei cada farrapo da minha memória e impedi-me de reviver a sombra do que um dia me uniu a ti. Queimei tudo, inclusive as cartas que nunca me escreveste. 
Saí pela porta do quarto que nunca existiu, com o coração entre as mãos, e como quem deixa de existir, embriaguei-me pela rua fora, na esperança perdida de encontrar um sentido para coisa nenhuma. 
Jamais me sentira assim - ausente de alvoroços.
O vazio preenchia a profundidade do que restava da minha alma. Tanto quanto as folhas cobriam o chão que, à minha passagem, tornavam-se subitamente silenciosas. 
Nunca antes tinha tido tempo para contemplar o sabor do vento - tão amargamente solitário. Mas não tanto quanto o sabor da tua ausência. Não tanto quanto a confirmação de cada engano - todas aquelas aparências que nunca existiram - senão aos meus olhos, cegamente enganados. 
Na verdade, a vida mostrava-me, agora, em primeira mão, o sabor de perder a razão para seguir uma vida de perfeitas inseguranças. 
Sentia-me disposta a continuar o que nunca tinha começado. Sem futuro, sem presente, sem passado. 
Eu e o vazio do tempo; 
Eu e a sapidez amarga de idolatrar o errado; 
Eu e o fardo de ser-se perdidamente apaixonado pela essência do que é vazio. 
Enfim, vou procurar se me encontro e devolver-me ao vago de uma tela em branco. 
E se, por engano, tudo isto vos parecer demência, procurem uma razão credível para amar incondicionalmente o que vos parece desumano.

quarta-feira, novembro 20, 2013

Até sempre Julieta - minha Juju!

Esta poderia ser apenas mais uma foto de uma gata como as que já tive - daquelas que nascem aqui em casa e que crescem e com as quais vivemos sem percepcionar a morte, ou pensar em tal.
Mas, desta vez é diferente. A Julieta, juju para os amigos, é uma gata que salvei num quentinho dia de Agosto de 2011. Esta foi-me entregue por uma senhora que a encontrou, no parque da cidade de Paredes, com a patinha esquerda partida e muito mal tratada. Vinha numa caixa com um paninho azul bebe - lembro-me como se fosse hoje.
Aquele olhar doce e curioso cativou-me desde logo - e, embora eu me apaixone por qualquer animal com extrema facilidade, o caso da Julieta sensibilizou-me particularmente e quis, desde logo, poder ficar com ela. A sua reabilitação cá em casa foi rápida e divertida. Ela é, quer dizer, era uma gatinha muito sociável, se é que me faço entender. 
Ao contrário das outras gatas, ela requeria muita atenção da minha parte e era muito mimela - daí o apelido juju. Até o meu pai, alguém que não gosta de gatos, simpatizou com a pequena Julieta, a juju. Além disso ela nunca cresceu muito e sempre foi a "nossa" pequenina juju. Até a Kitty, a minha cadela, dormia com ela! A Juju era a gatinha mais doce e meiga aqui de casa. 
Além disso, e ao contrário da maioria dos gatos, ela era muito altruísta - não se importava de deixar que os outros se alimentassem e, só no fim, caso sobrasse alguma coisa, alimentava-se. 
A Julieta foi mãe pela primeira vez nesta última primavera. Lembro-me que estava prestes a adormecer quando a minha mãe me acordou a dizer:
-Vai lá fora ver a Julieta que eu acho que ela vai ter os bebes!
Fiquei tão entusiasmada que acho que saí a correr descalça porta fora e só me lembro da imagem dela no seu cestinho a lamber-se toda e, quando me viu, começou a miar como se suplicasse ajuda. E assim o fiz - fui a auxiliar de parto da Julieta e estive sempre ao lado dela, até ao fim. O Sortudo foi o único que sobreviveu (daí o nome). 
Ambos tinham uma ligação muito forte e, como a fotografia percepciona, a Julieta sempre foi uma mãe atenciosa. 
Posso garantir que embora curta, a vida da Julieta foi recheada de amor e de coisas boas. 
O que acontece é que a minha Juju, a minha princesa, desapareceu, fazia hoje uma semana e dois dias. Fazia porque a encontrei, faz agora pouco tempo, morta num terreno ao lado de minha casa.
A Julieta estava grávida e demonstrava sinais de que teria os bebes em pouco tempo. Se foi isso que a matou ou outra coisa qualquer não sei mas sinto que motivos fortes para eu sorrir partiram com ela - hoje. 
Vocês, que estão a ler isto, podem achar patético mas para quem tem animais de estimação e está com eles todos os dias, percebe perfeitamente o que eu digo. 
A Juju era a minha pequenina, aquela que, todos os dias, quando eu chegava da universidade, vinha a correr com a kitty, ambas empolgadas e super felizes por me ver. 
Nunca pensei que a morte dela me deixasse neste estado de puro desalento mas é certo que sinto o coração aos pedaços e, patético ou não, as lágrimas ainda não cessaram. 
Procurei dias a fio por ela na esperança de, a cada esquina, a cada nascer do dia, a cada saco de comida que eu agitava, fosse como fosse,eu esperava que a Juju voltasse apenas de uma ressaca de uma fujidinha qualquer - mas não. A Juju não voltou, pelo menos da forma que eu esperava. 
A morte nunca é fácil de aceitar, muito menos quando é "alguém" que nos é próximo e por quem nutrimos um amor incondicional.
Estão a ver aquele ser que nos enche o coração só por existir na nossa vida? A Juju era assim!

terça-feira, outubro 08, 2013

Olhos para ver, alma para sentir, coração para enganar.



Sempre ouvi dizer que julgar os outros com mentiras incertas é mais fácil que deitar mãos ao trabalho e descobrir a verdade. Felizmente, aprendi, desde muito cedo, a separar aqueles de quem gosto, com quem, mais por educação do que por vontade, convivo e partilho momentos vulgares do meu quotidiano, daqueles que efectivamente são verdadeiramente importantes para mim, com os quais sei que posso contar até à morte. Agora percebo quanto a vida se deslumbra, quanto esta perde encantamento aos nosso olhos à medida que os anos passam.  Talvez porque todos nascemos aparentemente cegos, incapazes de ver a realidade da qual fazemos parte, onde as princesas são bruxas e a maldade é abundantemente adquirida.
Afortunadamente, caminhamos todos contra o vento, acompanhados pelas más energias daqueles que, miseravelmente, procuram na desgraça dos outros, a felicidade que nunca alcançaram. E encontram. Pois é certo. É certo que estou mais triste do que nunca. É tão certo que sinto ódio de alguém que nem sequer conheço. Todavia, estranho seria se não me sentisse assim, pois sou humana. Mas tenho âncoras por onde subir e mãos que me ajudem a levantar. E, ao contrário do que aconteceu hoje, eu acredito que amanhã o sol vai nascer para mim com uma intensidade diferente. Pois, por mais que me sinta sozinha agora, sei que há sempre alguém que me acompanha, alguém que, embora fisicamente ausente, abraça-me mesmo sem que eu o sinta, e me ausenta da dor quando eu sinto que ela, simplesmente, foi-se esporadicamente, quando não foi.  Porque hoje, sinto falta de quem já não está para ouvir-me. Sou teimosa, poderia escolher outra pessoa, mas ninguém é insubstituível. Que culpa tenho eu? 

Talvez pense demais, sinta demais, talvez faça demais. Pelo menos, faço alguma coisa. Não ando a passear vendo os outros viver. Fácil ir ao cinema, sentar confortavelmente numa cadeira e comer pipocas vendo a desgraça alheia passar na frente dos nossos olhos. A vida me ensinou a participar no filme, não a assistir a ele.
Vou deitar-me, abraçar a almofada e chorar até que as lágrimas se esgotem ou me afogue nas mesmas. Porque nada, para além do que sinto, faz qualquer tipo de sentido agora.