segunda-feira, janeiro 21, 2013

O poder do tempo

O tempo passa e, com ele, leva tudo. Os acontecimentos vividos num determinado momento vivem-se com uma certa intensidade e, quando o tempo passa, o que foi recebido com euforia, agora, torna-se mais breve sendo, por vezes, recebido com um certo tom de desprezo e empatia.
O que em tempos foi visto com uma determinada perfeição acaba por perder o encanto aos nossos olhos.
A ideia de "novidade", aquela que faz o coração bater com irregularidade e, de certa forma, desperta em nós sentimentos estranhos, também se apaga com o tempo e a repetição dos acontecimentos, dos sentimentos, das emoções faz com que tudo se torne mais suave e, até, monótono (...)
O friozinho do primeiro encontro, a ansiedade de conhecer alguém, o primeiro toque, o primeiro beijo, o primeiro desgosto, a primeira "facada", tudo é vivido de forma igual. Vivido de forma diferente é o que sucede depois de então. A repetição das coisas fá-las parecerem menos dolorosas ou felizes, por vezes, até já "familiares".
A tudo isto se chama experiência.
Por isso é que existem pessoas mais frias do que outras. Também, por isso é que a mesma música, a mesma paisagem, o mesmo sentimento, a mesma situação (...) As mesmas coisas podem ser interpretadas de forma diferente. Tudo é vivido de diferente forma, por pessoas diferentes.
Isto deve-se ao facto de todos termos um passado, um presente e planos para um futuro. Caso contrário estaríamos mortos. 

terça-feira, dezembro 04, 2012

O livro da minha vida












As experiências fazem da vida um livro de recordações imperfeitas e inacabadas. Porque a vida, tal como a construção de um livro, inicia-se com a planificação de um futuro. Futuro esse incerto e improvisado pois, caso assim não fosse, chamar-se-ia presente. Por vezes, a narrativa parece perfeita e, precisamente aí, falha. A vida, tal como um livro, não tem que ser perfeita. Caso assim fosse, a vid
a seria, honestamente, banal. Porquê? Porque a perfeição existe porque a imperfeição nasceu com ela. Quem não conhece uma delas, jamais descobrirá o valor da outra. Por isso mesmo, a vida não deve ser sinónimo de perfeição. Porém sim, devem fazer parte dela, momentos de perfeição. Momentos, embora fugazes e curtos, perfeitos de tal forma que se intensificam como lendas e mitos. A sua singularidade parece jamais ser ultrapassada. Isto é, quando algo de perfeito acontece e a sua perfeição parece imaculada, dificilmente surgirá, na vida, um momento que venha a substituir este. E quando isso acontece, esse momento deixa de sê-lo em detrimento da novidade. Por isto, na vida só um momento é perfeito: a consciencialização de que a vida não o é. Só assim conseguiremos viver de forma construtiva, aceitando o pouco que temos e valorizando o todo que nos falta. Pois, quem espera muito, sai sempre desiludida. Já quem não espera nada, sai sempre surpreendido. Contudo, tal como nos livros, na vida há folhas soltas que nunca se encontram. Porém, há sempre a possibilidade de tentar fazê-lo. É simplesmente a escolha entre lutar por um final feliz ou viver em conformidade com a incógnita de um possível final que, só por si, já parece triste.
É que a vida é muito mais do que uma palavra. A vida é feita de Momentos, onde, em determinadas circunstancias surgem pessoas de quem brota a partilha de palavras, de gestos a partir dos quais surgem laços e uniões aparentemente indissociáveis (...) A vida é um conjunto aleatório de emoções vividas em determinada idade e em determinada altura consoante determinada situação e acontecimento. O que determina a vida fácil ou difícil, aborrecida ou emocionante e feliz ou triste é a forma como cada um se perspectiva a si próprio e a relação com os outros. É fulcral se este faz de si a personagem principal do seu livro ou a única personagem dele.
Pensa: O monólogo, por vezes, é importante, porém, não tem que ser a tua história. A vida é feita, essencialmente, de partilha.
Por isto e muito mais, vive, luta, arrisca mas, principalmente, ama-te a ti e ama alguém ! 

domingo, outubro 07, 2012

A dor de quem fica


"Nunca na minha vida 30 segundos demoraram tanto tempo. Jamais um elevador demorara  tal eternidade.
Corri pelo corredor fora em direcção ao quarto e, ao vê-lo, o mundo desabou.
Qualquer tentativa,  da minha parte, em tentar acreditar que tudo não passaria de um pesadelo, foi aniquilada naquele preciso momento. Os meus olhos confirmavam tudo o que até então eu tentava consumir como um possível engano.
"É mesmo ele". - pensei.
Era como se eu estivesse a viver um pesadelo e estivesse naquela fase em que toda a gente espera que alguém a acorde para não ter de sofrer mais. Mas, na realidade, ninguém me acordou.
Descolei do chão e segui, a passos lentos e fracos, até à cama onde, imaculadamente, o Tomás estava deitado : aparentemente parecia estar a dormir à meses. A minha esperança estúpida em acreditar que tudo não passaria de um susto tornara-se, mais uma vez, aparentemente credível, sustentando-se de pequenos pormenores inventados pela minha cabeça.
Pousei, de leve, a minha mão sobre a dele e a minha pele arrepiou-se ao sentir tal frieza. Aquele que sempre fora o mais forte, o mais caloroso e o mais guerreiro, agora, transparecia uma impotência extremamente realista.

 - Eu sei que estás aí e, por isso, eu preciso que me oiças antes que seja tarde demais. - há medida que tentava falar, sentia as minhas palavras fugirem, como se, subitamente, eu estivesse a ficar vazia. - Ouve-me Tomás: O que vai ser de mim sem ti? O que vai ser de "nós"? O que vai ser do piano sem o toque dos teus dedos? do meu coração sem as tuas mãos para guiá-lo? do jardim sem os teus cuidados? do cão sem os teus banhos? do gato sem os teus pés ao fundo da cama? O que vai ser da folha de papel eternamente vazia e da tela onde, pacientemente, pintas-te um mar de sonhos? sonhos esses que ainda estão por concretizar.
Tu que me ofereceste o céu. Tu que me mostraste o verdadeiro significado da palavra paraíso e a possível semelhança que este tem com o inferno (...) Por favor, não deixes que me atirem das nuvens. Não me deixes.

Seguido destas palavras manteve-se um silêncio petrificante. A sala foi preenchida pelo vazio da dor e da angustia. Era como se estivesse disposta a qualquer coisa para impedir que partisse.
Eu esperava, ansiosamente, que ele reagisse, que ele abrisse os seus lindos olhos verdes e me sorri-se. Contrariamente a todas as minhas expectativas, ele  permaneceu igual aos meus pesadelos. O meu corpo começava a ficar cada vez mais fraco, aparentemente atropelado pela realidade das circunstancias.
- Independentemente do que vai acontecer eu quero que saibas que... - comprimi os lábios e libertei todo o ar dos meus pulmões através das palavras. -  a minha resposta é sim. Eu aceito casar-me contigo.


E então a realidade tornou-se num grande e doloroso pesadelo. Era como se ele estivesse à espera de ouvir tais palavras para depois, subitamente, partir.
As lágrimas deixaram-me muda  e correram sobre o meu rosto, agora vazio e dilacerado pela dor do momento. Aquele "piiiiiiiiiiiiiii" e o significado dele tornaram-se sufocantes  juntamente com a confusão que se instalou no quarto: os médicos, os enfermeiros.
E, por muito que eu quisesse salvá-lo, eu senti, naquele momento, que obrigá-lo a ficar era um acto de egoísmo. Era como se tivesse lido nos seus lábios a palavra "ADEUS", seguidos de um sorriso.

E até hoje, acreditem, eu só queria poder ter partido com ele, fosse para onde quer que ele estivesse indo, caminhando por onde caminhasse, na companhia de quem fosse, eu só queria ter morrido com ele. Porque na realidade, tudo o que eu era, tudo o que ele, um dia, tivera colocado dentro mim, tudo o que construíra até então, tudo isso, simplesmente: foi-se. "

A plateia levantou-se preenchendo a sala de aplausos e lágrimas. Ela fechou o pequeno diário e transpareceu um leve sorriso a todos. Ela sentia-se feliz porque, de uma forma ou de outra, ela sentira que ele estivera presente em todo o seu discurso e que estes haviam estado, um dia, casados.