sexta-feira, novembro 11, 2011

Escolha

"Depois de passar-me a mala para as mãos, despediu-se rapidamente com um beijo no rosto e empurrou-me para a direcção do comboio. Era como se estivesse a fazer com que tudo fosse dolorosamente mais rápido. A decisão tinha sido tomada pelos dois. Não sabíamos ao certo se seria o melhor para ambos mas sabíamos que esta era a única forma de saber - tentar.
Depois de entrar, deixei-me ficar junto á porta. A mesma fechou-se e eu fiquei a olhar o rosto envergonhado do homem que deixava para trás. Várias imagens passaram pela minha cabeça: o primeiro beijo, a primeira noite, o primeiro ano, o primeiro pesadelo, a primeira ausência (...)
Limpei as lágrimas com raiva da minha própria vergonha e virei o rosto com medo de obrigar alguém a parar o comboio.
Só mais tarde percebi que nunca deveria ter partido para onde quer que fosse. ♥ "

quinta-feira, novembro 03, 2011

Desapontada

Sem você eu não consigo respirar.
Só mais quatro longos dias.  O dia já se foi e a lua reinará em breve. Mais um dia terminou e tu não voltas-te. A campainha não tocou, a porta não se abriu, a carruagem não se ouviu ao fundo da rua e o meu coração faz tempo que parece ter parado com medo de partir. Enquanto oiço o meu pai tocar no piano a música mais triste do mundo, lá fora a chuva começa a cair com leveza. E, á medida que a música se aproxima do refrão a chuva fica mais intensa. Como se se tratasse de um contraste sem nexo. O olhar do meu pai parece cada vez mais apagado, tal como o meu. É como se a morte da minha mãe o fizesse compreender perfeitamente a dor que sinto. Quando a pessoa que amamos nos deixa, da forma que for, o mundo parece não fazer mais sentido. É como se o futuro já não fosse prestar e é como se o passado fosse a única coisa boa para o resto das nossas vidas.  Ao longo destes anos o meu pai sempre lidou com a doença da minha mãe como se fosse uma mensagem de Deus. A doença fé-los viver o amor com mais intensidade, passaram a aproveitar cada segundo. No entanto, embora o meu pai sempre tivesse demonstrado conformismo, por de trás da compaixão surgiu nele um lado mais frio. É como se, á medida que o tempo passa ele fique cada vez mais distante da realidade. Como se tivesse nas mãos uma bomba que, minuto a minuto, se aproxime da explosão. Agora que tudo terminou o meu pai não vive mais. É como se grande parte dele tivesse ido junto com a minha mãe e o pouco que ficou não fizesse diferença alguma. Acredito que o amor é para sempre. No entanto, acredito que ele é demasiado forte para terminar como terminou o nosso. Se realmente partis-te é porque o nosso amor nunca chegará ao amor dos meus pais. Um amor eterno, capaz de superar a doença e a morte.
Beijei o rosto do meu pai, que nem se moveu, e subi até ao meu quarto enquanto o som do piano ficava para trás como promessa de um retorno.
Deixei a chuva percorrer o meu rosto e adormeci com uma nuvem de recordações insensatas e impuras de dois amantes que se perderam para sempre.

segunda-feira, outubro 03, 2011

Adormecida

Eu guardo uma coisa dentro de mim. Na verdade, uma imagem. E hoje eu me pergunto se o motivo de seu ser assim, é culpa dessa imagem.
Esta noite adormeci com uma missão - sentir.
Antes de deitar despi-me e libertei a alma. Abri a janela e deixei-a ir. Foi demasiado fácil desligar-me das emoções.
A partir desse momento foi como se falta-se qualquer coisa. "Qualquer coisa" que não é importante agora.
Afastei as cortinas, subi as persianas, abri as janelas e deslizei até á varanda.
A lua ilumina os longos hectares de terra e vegetação. As estrelas estão de tal forma embutidas no céu que é como se nele estivessem penduradas.
Nunca, em toda a minha vida, me apercebera de como a noite é eterna.
Virei-me para o interior do quarto. Sob a cama tinha a caixa. A caixa de tudo o que um dia fui. São recordações?
Não . São águas passadas que as cheias levarão.
Como já disse, a noite está linda e não sinto outra coisa.
A minha missão é fazer de mim aquilo que devo ser - Sem passado, sem sofrimento e sem identidade.
Identidade? que percebo eu sobre isso.
Bem, no fim de contas estou a fazer o que, todas as noites, meio mundo tenta fazer enquanto a outra metade deixa para a noite seguinte.
O que no fundo nos falta é uma missão. Algo que faça com que sejamos autênticos. Sim, autênticos.
Sem segundas preocupações, sem aparentes "ses", sem uma identidade definida como "robotts".

Aposto que, a partir desta noite, a lua nunca mais parecerá redonda.