sexta-feira, setembro 02, 2011

Adeus

(Procurei na gaveta uma folha velha, cuspi na pena e mergulhei-a na tinta. Chorei tudo e comecei a escrever)

Quando o despertador tocou a janela abriu-se e o sol não estava no céu. O dia estava chuvoso, apagado ... diria triste. Levantei o sobrolho e espreitei - ao fundo do quarto estava o teu retrato, sujo, abandonado mas lindo como sempre.
Levantei-me e abri as restantes janelas do velho quarto.
(Respira)
Fazia tempo que não vinha a esta casa. Desde que nos separamos que, cada vez que batia á porta, era como se não houvesse ninguém para além dela. As janelas não se abriam, não havia vestígios de qualquer movimento nem sequer da tua presença. Nunca mais me aceitas-te no teu "mundo", deixaste-me tão sozinha que a solidão foi a tua única companhia desde que o fizes-te.
(Não guardo rancor)
Abri as portas do armário enferrujado e retirei um casaco preto, aquele que te ofereci em Paris. (Lembras-te?)
Despi o que trazia na noite passada e vesti-o. Continuava suave e quente.

Depois, procurei a tua gravata favorita - vermelha.
Sei que não era apropriada para a ocasião mas sempre me pediras que a usasse e nunca fi-lo.
(Eras um idiota )
Por fim, retirei do guarda jóias o relógio de bolso que trouxeste de Londres.
"Estou pronta" - pensei.
Percorri a pé o caminho que, todos os dias, tu fazias para visitar os teus pais.
O cheiro a terra molhada faz-me lembrar os nossos piqueniques até ao por do sol, e não só.

Roubei uma Rosa do teu jardim e carrego-a no peito até à tua nova casa.
(O cemitério está repleto)
Estão aqui todos os teus amigos, a tua família e até o Henrique - o teu cão.
Tal como tu, não gosto de cerimónias e acabei por ficar com ele junto á sepultura.
(Como sempre, eu espero)
Aí vens, sob a forma daquilo que nunca foste. Hoje, todos te amam, todos te querem e todos perdoam o mal que fizes-te, pois, (incluindo eu) todos querem que descanses em paz.
(Não vou chorar)
Amanhã, todos vão visitar-te e colocar flores na tua sepultura. Mas e depois?
depois vais ser como todos os "heróis" esquecidos entre as lembranças e a novidade do mundo contemporâneo.
(Pára)
Espero que leves contigo essa rosa como prova de tudo o que, um dia, significamos um para o outro
Acredito que, quando regressar, irás abrir-me a porta e dar-me o abraço que ficas-te a dever.

(Consciente dos meus actos mas atropelada pela memória dos teus, rasguei a carta e parti o relógio de bolso contra o peito)

sexta-feira, agosto 26, 2011

Angustiada

Um dia já quis ser princesa do reino dos outros, amante do coração mais nobre e detentora da maior felicidade possível. Porém, com o tempo, fui-me apercebendo que a vida não é como nos livros que lia antes de adormecer.
As histórias são diferentes da História. O ser humano sonha, o ser humano cria e o ser humano constroi mas, por trás de toda a novidade, existe nele um lado mais puro e simultâneamente egoísta - A recordação de um tempo perdido. Aquela que magoou tantos poetas, aquela que inconscientemente é vista como o tempo de "ouro". É lá que moram as princesas e os Príncipes e todas as alegrias de um tempo sem fim.
No fundo, se o Homem soubesse, desde logo, o sofrimento pelo qual terá de passar depois da inconsciência infantil, aposto o meu coração como, covarde como é, preferia não nascer .

Tudo o que somos não passa daquilo que tentamos ser e, muitas das vezes, morremos sem tentar ou perdemos a cabeça a conseguir.

quinta-feira, agosto 11, 2011

Memórias de uma Dama

De acordo com tudo o que ficou para trás, a vida seguirá piorando.
Os dias parecem encolher e as noites somente trazem à tona as memórias que, cobertas de mágoa, corrompem a postura de uma dama.
Lembro-me, com perfeita clareza, dos passeios de bicicleta pelos terrenos despovoados. Hoje, em lugar dos mesmos impõem-se, cada vez mais, as grandes infira-estruturas. A meu parecer, o mundo está perdido.
O homem contribui diariamente para a sua auto-destruição. Faz tempo que não sinto o verdadeiro perfume das flores caseiras que, um dia, fizeram parte da vivenda (numa jarra ao pé da lareira).
O que de pior se trata são os valores. A dignidade atingiu uma nova definição - impura e incorrecta. (Mas aceite pela maioria) .
Não há muito para dizer, (corrijo) não há muito que deva ser dito.
*A Ignorância faz do ser humano alguém mais digno de viver. Tal como uma criança.
A criança que um dia eu fui. A criança que já morreu.



 
P.S. Deixo tudo o que herdei ao vento.