segunda-feira, outubro 03, 2011

Adormecida

Eu guardo uma coisa dentro de mim. Na verdade, uma imagem. E hoje eu me pergunto se o motivo de seu ser assim, é culpa dessa imagem.
Esta noite adormeci com uma missão - sentir.
Antes de deitar despi-me e libertei a alma. Abri a janela e deixei-a ir. Foi demasiado fácil desligar-me das emoções.
A partir desse momento foi como se falta-se qualquer coisa. "Qualquer coisa" que não é importante agora.
Afastei as cortinas, subi as persianas, abri as janelas e deslizei até á varanda.
A lua ilumina os longos hectares de terra e vegetação. As estrelas estão de tal forma embutidas no céu que é como se nele estivessem penduradas.
Nunca, em toda a minha vida, me apercebera de como a noite é eterna.
Virei-me para o interior do quarto. Sob a cama tinha a caixa. A caixa de tudo o que um dia fui. São recordações?
Não . São águas passadas que as cheias levarão.
Como já disse, a noite está linda e não sinto outra coisa.
A minha missão é fazer de mim aquilo que devo ser - Sem passado, sem sofrimento e sem identidade.
Identidade? que percebo eu sobre isso.
Bem, no fim de contas estou a fazer o que, todas as noites, meio mundo tenta fazer enquanto a outra metade deixa para a noite seguinte.
O que no fundo nos falta é uma missão. Algo que faça com que sejamos autênticos. Sim, autênticos.
Sem segundas preocupações, sem aparentes "ses", sem uma identidade definida como "robotts".

Aposto que, a partir desta noite, a lua nunca mais parecerá redonda.

sexta-feira, setembro 23, 2011

Sem rumo

Caminhamos de mãos dadas para um sitio sem morada. Prometemos unir as nossas vidas por uma só. Deixamos para trás um passado de derrotas e de mal entendidos.
Decidimos que juntos somos maiores e mais fortes do que o próprio destino. Não sabemos se o caminho é longo ou perigoso mas sabemos que não podemos desistir.
Levamos connosco poetas, pintores, artistas, pobres, ricos e doentes.
Até agora já foram os vários que desistiram, outros que perderam a vida a tentar. No entanto, demos a nossa palavra e só a vida vale mais do que isso.
-Falta muito mamã? -Exclamou a pequenina que varria as folhas do outono com o pequeno peluche enquanto caminhava de mão dada com a mãe.
A dona de casa baixou-se e, limpando o sorriso inocente do filho, sussurrou-lhe ao ouvido:
“Estás a ver aquela luz? ... quando ela descer até à colina, ali ao fundo, nós já teremos chegado .”

A criança não parou de sorrir e, mesmo sem perceber a explicação, continuou junto da mãe o caminho que, certamente, esta desejava fazer por ela.
Em poucos dias a esperança parecia ser a única fé e a angústia de um “caminho sem fim” tornava-se o pão de cada dia. As cabeças começaram a deixar de se erguer e os rostos, angustiados e apagados, começaram a apagar o horizonte que tinham desenhado.
“Cada vez somos menos.” – pensam uns.
“Nunca soubemos se isto ia dar certo” – pensam outros.
O que o Homem não sabe é que a vida é feita de incertezas e que , por mais forte e impotente que este pensa ser, mesmo unido, o Homem não pode lutar contra a sua própria natureza.

O homem forte não é aquele que se une para não cair, é aquele que se separa para evitar que os outros caíam com ele.

sexta-feira, setembro 16, 2011

Memórias Soltas

"Quando acabei de fechar a última mala, bateram á porta.
-Acabei mesmo agora de fazer as malas! - exclamei com um sorriso falso -vamos?
-Tem a certeza de que é isto que quer ? sabe que...
-Chiuuu - sussurrei impedindo-o de continuar a falar.
Faltava pouco para o por do sol e tinha de apressar-me. Carregamos as centenas de malas vazias e, quando as lágrimas queriam denunciar-me, eu traí-as.
-Espere, eu esqueci me de algo lá em cima.
-Quer que...
-Não! Eu vou lá, já volto. -respondi subindo as escadas a correr.
Abri a porta, que afinal já estava aberta, escorreguei no tapete que não existia e levantei-me com a força do vento. Depois, corri em direcção ao quarto, aquele onde à anos que não conseguia entrar, abri a gaveta aberta e retirei a foto que já não la estava.
Não?
Pois não, a fotografia estava sob a cama mal feita, aquela onde brincava com a minha irmã mais nova.
Peguei a foto e desci sem nunca mais olhar para trás.
"É melhor assim" - pensei.
Antes que voltasse a bombardear-me de perguntas mandei-o calar-se e entrei no grande e velho carro que, um dia, pertenceu aos meus pais.
A viagem foi longa e demorada. Olhava a paisagem e fazia para não pensar em tudo o que deixava para trás. Há medida que o carro se afastava da casa era como se conseguisse sentir as migalhas a cair estrada fora. Como um rasto de tudo o que nunca passou de um vazio.
Finalmente, quando cheguei á estação, retirei a mala (pois não eram assim tantas) e, sem deixa-lo falar, abracei-o como se abraça o tempo e sai a correr calçada fora até ao comboio.
A pressa apanhou-me distraída e esbarrei-me contra algo.
-Desculpe ! -pedi enquanto apanhava as folhas da pessoa com quem me despistei.
Eram papeis, muitos papeis e uma fotografia antiga. Uma fotografia? Isso. Uma fotografia. Mas não era uma fotografia qualquer.
"é uma fotografia idêntica á que carrego no peito, uma..."
-Uma fotografia de família. -O rapaz terminou a frase do meu pensamento e limpou as lágrimas envergonhadas que lhe caiam sob o rosto. Trazia uma farda verde.
-É militar? .perguntei feita parva.
-Sobrevivente, apenas. e você? -perguntou sorrindo.
-Eu? Sou apenas uma órfão parva que, devido a uma conversa, está prestes a perder a viagem mais importante da sua vida.
-Não me diga que deixou uma casa antiga, uma casa de família, uma casa que lhe lembra, todos os dias, que ... lamento imenso. -enquanto falava olhava para o céu, era como se cuspisse as palavras, como se estivesse a ler nas nuvens.
-Como é que...
Mal começara a fazer a pergunta e já não havia ninguém por perto.
-Então menina? vai perder o comboio ! - resmungou uma velhota que me empurrava no meio da multidão.
Entrei. Sentei-me e adormeci.
Segui-a sem destino, sem vontade e sem esperança. De uma única coisa eu tinha a certeza.
Era órfão e acabara de amar um Homem em apenas 2 minutos. Um homem que nunca mais iria ver na vida. Que homem?
Talvez não tenha avido homem algum.
"Cala-te" - pensei.
"Enfim, continuei a dormir e, convencida pelo cançasso, alimentei a ideia de que era melhor recomeçar a história perdida.  A história de uma menina que nascera sem pais, de uma mulher que não tinha futuro e de um ser sem destino que caminhava para longe de tudo.