sábado, 9 de agosto de 2014

Nos braços do tempo

"Corre!"
Estava a fazê-lo há horas. Já não sentia o oxigênio a percorrer o meu corpo, tanto quanto o sangue.
Correr, correr, correr. Continuava sem perceber o motivo pelo qual estava a fazê-lo, simplesmente sabia que sim, independentemente do motivo, existisse ou não. E eu conseguia senti-la. Aquela vontade incontrolada de querer fugir permanecia. Permanecia camuflada em adrenalina e consumia cada célula, cada átomo do meu corpo. Eu sentia também o medo. Aquele que justificava a velocidade com que eu corria, como quem foge de um passado de terror. E, no fundo, eu estava a fugir de tudo aquilo que não conseguia permitir-me ser.


Agora que corria sem destino, há procura de um entendimento que nunca mais chegava, agora que a vida me pregara esta partida e me empurrara para esta espécie de encruzilhada, agora eu teria de saber como lutar sem forças, há procura de um lugar, de um destino, de um espaço, de qualquer coisa.

Mas de repente parei. Muito antes de cair. Muito a tempo de sentir o abismo, amparada pelos braços quentes de quem chamara o meu nome muito depois de já não o conseguir ouvir. E então eu quis falar. 

Jasper? És tu? Onde estiveste este tempo todo? Não me deixes parada! Olha a luz! Sai, Sai, saiii...

Estas eram perguntas com as quais eu teria que viver até que as forças me permitissem falar. Até lá só queria conseguir respirar, muito antes de mergulhar na claridade. Muito depois de já ser tarde demais para o que quer que pudesse ter sido - dito, sentido ou feito. Se ao menos eu conseguisse dizer-lhe o quanto esperei por ele. O quanto desejei ter desejado nunca tê-lo deixado partido. 

Mas agora era tudo demasiado claro e vago para se ouvir o que quer que fosse. Era só eu, e nem havia braços, nem sinais de Jasper. Estava novamente sozinha. Parada no eterno. Entre o vazio e o vazio. Soubesse eu que o tempo era tão curto, teria corrido um pouco mais.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

De que são feitos os nossos corpos



Foi assim que aprendi a receber e abraçar a vida. Com os braços bem abertos. Com um sorriso nos lábios. Mas nem sempre isso acontece. Fraquejo, como toda gente. E, por mais que não queira e não faça questão, tenho momentos em que tudo isso se evapora. A determinação cede e dá lugar ao medo, e a todas as incertezas que nunca imaginamos vir a ter, mas que fazem parte de nós, tanto quanto os próprios órgãos. 
Ainda assim, todas as vezes em que fraquejei só fizeram de mim uma pessoa mais forte, porque se assim não o fosse, nunca me teria levantado. Queda após queda, dou por mim a emendar pedaços da minha conduta que até então pareciam corretos, claros e até bem lúcidos. Mas a vida faz-me perceber, tanto quanto o destino, que ambos são meus, ainda assim dependo deles. 

E o que é a vida senão isto? Poderemos, ou seremos capazes de viver eternamente gratos por aquilo que somos? Conseguiremos ser constantemente felizes? Eu já acreditei que sim, mas as circunstâncias da vida têm-me mostrado o contrário. É preciso ser gentil, ser forte e, acima de tudo, sermos nós próprios e aprendermos a amar o que somos. A ambição de sermos aquilo que não somos pode matar-nos. Eu aprendi a domesticar a minha, e apenas querer ser alguém. Alguém que existe muito para além dos vossos olhares, mas que ainda assim depende deles.

O que somos, afinal, senão espelhos de um reflexo manipulado pela nossa própria imaginação? Reflexo esse, que não existe além dos nossos olhos. Espelho esse que se fosse real, já se tinha partido.
O que somos, para onde vamos e o que nos move são factos que determinam o propósito da nossa existência.