terça-feira, 4 de junho de 2013

A vida do avesso em 30 segundos

Aquele tempo de espera estava a matar-me por dentro. O «tic-tac» do relógio multiplicava-se na sequência de um batimento cardíaco que parecia obrigar o meu coração a saltar do peito, forçando-me a tirar o relógio do pulso. A sala estava repleta de gente que esperava, hipoteticamente, o mesmo que eu: Noticias. Fossem elas quais fossem, o rosto desesperado de todos os que preenchiam a sala reflectia-se na ânsia desmoralizadora de recebê-las. Cada vez que uma porta se abria, cada vez que alguém suspirava mais forte ou qualquer tipo de ruído que soasse a novidade, todos se centravam e erguiam o olhar na procura constante de algo que os levasse a uma resposta. O calor humano era cada vez mais intenso e, junto com o desânimo, começava a estampar-se nos rostos a impotência de esperar muito mais. Uma porta abriu-se mas eu esperei, com medo e desânimo, que não fossem notícias para mim. Para meu temor, os passos erguiam-se na minha direcção até que consegui ver uns sapatos pretos, brilhantes como o luar, a pararem mesmo junto a mim. A voz educada da mulher loira de olhos azuis fez-me estremecer de receio.

– Trago-lhe notícias. - Disse ela.
Limitei-me a limpar as lágrimas envergonhadas que me escorriam pelo rosto e, numa lufada de oxigénio, procurei arrancar, das entranhas do meu corpo, toda a força existente dentro dele para aguentar toda a pressão daquele momento.
- Reconhece esta fotografia? – Seguida destas palavras a enfermeira ergueu, na minha direcção, a fotografia onde ambos, eu e o Tomás, estávamos a comer um gelado no nosso último dia de férias, em cuba.
- Sim, reconheço perfeitamente. – Queria ter forças para perguntar-lhe o que realmente queria saber mas, de facto, a ausência destas parecia cada vez mais real.
A enfermeira aninhou-se, junto aos meus joelhos e, com os olhos cheios de lágrimas, disse-me:
-Juro-lhe que nunca fizemos tanto para salvar uma pessoa. Ele lutou como nenhum ser humano tinha lutado, antes, pela vida. Contudo, não sobreviveu aos ferimentos. Lamento muito. Antes de sucumbir exclamou o nome Beatriz.

Beatriz era o nome da nossa futura filha, a que eu ainda carregava no corpo. Agora, era tudo que me restava, como fruto de uma sombra – a sombra de um passado perfeito que, em momentos breves, se tornara num autêntico pesadelo.

A enfermeira abraçou-me como se sofresse comigo e embalou o meu pranto até que eu perdesse todas as forças para continuar a chorar. A morte era uma novidade completamente prematura para mim.