sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Onde cabem os sonhos?



É engraçado como a vida nos ultrapassa e nos surpreende. 
Da mesma forma que, enquanto o tempo passa, vamos sonhando e desejando o que, antes, poderia parecer descabido e intemporal - as ambições mudam e as metas também. E, à medida que crescemos vemos portas, tão facilmente se abrindo, da mesma forma que se fecham para nunca mais abrir. Depois existem aquelas cujo destino é incerto e impensado mas que, por tamanha controversidade, permanecem na memória até que a gente se convença do contrário daquilo que desejávamos que acontecesse. 
A vida é assim - um livro, um barco, um oceano de sonhos e de ilusões cujo tempo determina o próprio tempo para a "hora certa" de determinados acontecimentos - para que as portas se fechem e as janelas se abram, do mesmo modo que alguém possa entrar e ficar ou sair. 
A minha vida é isto - um sonho cujo fado é a minha própria realização, como alguém que vive com o propósito de chegar o mais longe possível. Por algum motivo se justifique que me digam que "não és deste mundo". Talvez tenham razão, ou talvez estejam todos errados. 
O que sei, de facto, é que jamais desistirei dos meu sonhos, tanto quanto todos aqueles que acreditam na força dos mesmos, custem o preço que custarem - até que todas as portas se fechem haverá, certamente, todos os motivos para abrir todas as janelas e lutar pelos melhores tesouros. 
Diz-se que na vida, nem tudo pertence ou depende de nós próprios, embora eu acredite no oposto. Mas, e o destino?
Quem caminha sobre os sonhos saberá sempre o destino dos seus passos - acorda.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Solitariamente acompanhada


Deixei tudo para trás. 
Rasguei cada farrapo da minha memória e impedi-me de reviver a sombra do que um dia me uniu a ti. Queimei tudo, inclusive as cartas que nunca me escreveste. 
Saí pela porta do quarto que nunca existiu, com o coração entre as mãos, e como quem deixa de existir, embriaguei-me pela rua fora, na esperança perdida de encontrar um sentido para coisa nenhuma. 
Jamais me sentira assim - ausente de alvoroços.
O vazio preenchia a profundidade do que restava da minha alma. Tanto quanto as folhas cobriam o chão que, à minha passagem, tornavam-se subitamente silenciosas. 
Nunca antes tinha tido tempo para contemplar o sabor do vento - tão amargamente solitário. Mas não tanto quanto o sabor da tua ausência. Não tanto quanto a confirmação de cada engano - todas aquelas aparências que nunca existiram - senão aos meus olhos, cegamente enganados. 
Na verdade, a vida mostrava-me, agora, em primeira mão, o sabor de perder a razão para seguir uma vida de perfeitas inseguranças. 
Sentia-me disposta a continuar o que nunca tinha começado. Sem futuro, sem presente, sem passado. 
Eu e o vazio do tempo; 
Eu e a sapidez amarga de idolatrar o errado; 
Eu e o fardo de ser-se perdidamente apaixonado pela essência do que é vazio. 
Enfim, vou procurar se me encontro e devolver-me ao vago de uma tela em branco. 
E se, por engano, tudo isto vos parecer demência, procurem uma razão credível para amar incondicionalmente o que vos parece desumano.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Até sempre Julieta - minha Juju!

Esta poderia ser apenas mais uma foto de uma gata como as que já tive - daquelas que nascem aqui em casa e que crescem e com as quais vivemos sem percepcionar a morte, ou pensar em tal.
Mas, desta vez é diferente. A Julieta, juju para os amigos, é uma gata que salvei num quentinho dia de Agosto de 2011. Esta foi-me entregue por uma senhora que a encontrou, no parque da cidade de Paredes, com a patinha esquerda partida e muito mal tratada. Vinha numa caixa com um paninho azul bebe - lembro-me como se fosse hoje.
Aquele olhar doce e curioso cativou-me desde logo - e, embora eu me apaixone por qualquer animal com extrema facilidade, o caso da Julieta sensibilizou-me particularmente e quis, desde logo, poder ficar com ela. A sua reabilitação cá em casa foi rápida e divertida. Ela é, quer dizer, era uma gatinha muito sociável, se é que me faço entender. 
Ao contrário das outras gatas, ela requeria muita atenção da minha parte e era muito mimela - daí o apelido juju. Até o meu pai, alguém que não gosta de gatos, simpatizou com a pequena Julieta, a juju. Além disso ela nunca cresceu muito e sempre foi a "nossa" pequenina juju. Até a Kitty, a minha cadela, dormia com ela! A Juju era a gatinha mais doce e meiga aqui de casa. 
Além disso, e ao contrário da maioria dos gatos, ela era muito altruísta - não se importava de deixar que os outros se alimentassem e, só no fim, caso sobrasse alguma coisa, alimentava-se. 
A Julieta foi mãe pela primeira vez nesta última primavera. Lembro-me que estava prestes a adormecer quando a minha mãe me acordou a dizer:
-Vai lá fora ver a Julieta que eu acho que ela vai ter os bebes!
Fiquei tão entusiasmada que acho que saí a correr descalça porta fora e só me lembro da imagem dela no seu cestinho a lamber-se toda e, quando me viu, começou a miar como se suplicasse ajuda. E assim o fiz - fui a auxiliar de parto da Julieta e estive sempre ao lado dela, até ao fim. O Sortudo foi o único que sobreviveu (daí o nome). 
Ambos tinham uma ligação muito forte e, como a fotografia percepciona, a Julieta sempre foi uma mãe atenciosa. 
Posso garantir que embora curta, a vida da Julieta foi recheada de amor e de coisas boas. 
O que acontece é que a minha Juju, a minha princesa, desapareceu, fazia hoje uma semana e dois dias. Fazia porque a encontrei, faz agora pouco tempo, morta num terreno ao lado de minha casa.
A Julieta estava grávida e demonstrava sinais de que teria os bebes em pouco tempo. Se foi isso que a matou ou outra coisa qualquer não sei mas sinto que motivos fortes para eu sorrir partiram com ela - hoje. 
Vocês, que estão a ler isto, podem achar patético mas para quem tem animais de estimação e está com eles todos os dias, percebe perfeitamente o que eu digo. 
A Juju era a minha pequenina, aquela que, todos os dias, quando eu chegava da universidade, vinha a correr com a kitty, ambas empolgadas e super felizes por me ver. 
Nunca pensei que a morte dela me deixasse neste estado de puro desalento mas é certo que sinto o coração aos pedaços e, patético ou não, as lágrimas ainda não cessaram. 
Procurei dias a fio por ela na esperança de, a cada esquina, a cada nascer do dia, a cada saco de comida que eu agitava, fosse como fosse,eu esperava que a Juju voltasse apenas de uma ressaca de uma fujidinha qualquer - mas não. A Juju não voltou, pelo menos da forma que eu esperava. 
A morte nunca é fácil de aceitar, muito menos quando é "alguém" que nos é próximo e por quem nutrimos um amor incondicional.
Estão a ver aquele ser que nos enche o coração só por existir na nossa vida? A Juju era assim!

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Olhos para ver, alma para sentir, coração para enganar.



Sempre ouvi dizer que julgar os outros com mentiras incertas é mais fácil que deitar mãos ao trabalho e descobrir a verdade. Felizmente, aprendi, desde muito cedo, a separar aqueles de quem gosto, com quem, mais por educação do que por vontade, convivo e partilho momentos vulgares do meu quotidiano, daqueles que efectivamente são verdadeiramente importantes para mim, com os quais sei que posso contar até à morte. Agora percebo quanto a vida se deslumbra, quanto esta perde encantamento aos nosso olhos à medida que os anos passam.  Talvez porque todos nascemos aparentemente cegos, incapazes de ver a realidade da qual fazemos parte, onde as princesas são bruxas e a maldade é abundantemente adquirida.
Afortunadamente, caminhamos todos contra o vento, acompanhados pelas más energias daqueles que, miseravelmente, procuram na desgraça dos outros, a felicidade que nunca alcançaram. E encontram. Pois é certo. É certo que estou mais triste do que nunca. É tão certo que sinto ódio de alguém que nem sequer conheço. Todavia, estranho seria se não me sentisse assim, pois sou humana. Mas tenho âncoras por onde subir e mãos que me ajudem a levantar. E, ao contrário do que aconteceu hoje, eu acredito que amanhã o sol vai nascer para mim com uma intensidade diferente. Pois, por mais que me sinta sozinha agora, sei que há sempre alguém que me acompanha, alguém que, embora fisicamente ausente, abraça-me mesmo sem que eu o sinta, e me ausenta da dor quando eu sinto que ela, simplesmente, foi-se esporadicamente, quando não foi.  Porque hoje, sinto falta de quem já não está para ouvir-me. Sou teimosa, poderia escolher outra pessoa, mas ninguém é insubstituível. Que culpa tenho eu? 

Talvez pense demais, sinta demais, talvez faça demais. Pelo menos, faço alguma coisa. Não ando a passear vendo os outros viver. Fácil ir ao cinema, sentar confortavelmente numa cadeira e comer pipocas vendo a desgraça alheia passar na frente dos nossos olhos. A vida me ensinou a participar no filme, não a assistir a ele.
Vou deitar-me, abraçar a almofada e chorar até que as lágrimas se esgotem ou me afogue nas mesmas. Porque nada, para além do que sinto, faz qualquer tipo de sentido agora.

domingo, 6 de outubro de 2013

Desamor - o sabor da traição


Passo a passo, com o coração entre as mãos e alma a cair aos pedaços, humilhada pelas lembranças humildes de quem já soube vive, procuro, nas pedras da calçada, na entranha das folhas do outono e, até, nas formas abstractas das nuvens, o significado, a razão e o sentido para tamanho sofrimento, para desgraçada sina. Vejo-me descalça pelos meus próprios pés, despida pelas minhas próprias mãos e ausente de qualquer tipo de munição, de reste de esperança. E, ainda que perdida, sigo, a passos lentos mas firmes, o caminho da incerteza - sem um único vestido preto. Todas as promessas, todas as certezas e todas as flores, tudo isso, fica para trás, como o rasto pálido do meu passado ilusório. 

Respira é a única coisa a que me obrigo a fazer. A visão falha-me e sinto-me imunda, não tanto quanto o meu coração - esfaqueado e repartido pelo horizonte brilhante que se afogou no vazio do incerto. E assim se cria o desumano, se atropela o sonho e se exalta a estupidez da fidelidade. Perdi o coração e a alma para um homem que me perdeu sem nunca merecer ter-me tido. Dei tudo de mim e sem nada fiquei. O que ganhei? Dias perfeitos que não passaram de um teatro sem aplausos. Carros, vestidos, jóias e um amor de cinema cujo fim foi um grande best-seller dramático. O que fica do que foi? Raiva, ódio e todo o leque de sentimentos que compõe a orquestra do devaneio, onde o diabo descansa por entre os desgraçados. 
E assim se resume o amor, a uma peça de fruta. Uma maça,por exemplo, o homem escolhe com o olhar de quem vai possuir, rasga a pele e saboreia o mais intimo possível, e depois? quando o sabor amargo se aproxima do caroço, quando não há mais nada para descobrir, para saborear, para possuir - o homem cospe e deita fora, como se aquela fosse apenas mais uma. 
Se ao menos fosse eu a maça vermelha da branca de neve, aquele maldito merecia pior. 

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Pedaços


Não sei ao certo se o que escreverei fará qualquer tipo de sentido mas, de facto, é a realidade que se atravessa em mim. Ao que parece, tenho duas vidas. Melhor - tenho uma vida dupla. A primeira é a mais digna, a mais "correcta" e na qual me cinjo de regras e esforço-me para cumprir uma meta traçada de sonhos que, estupidamente, são vividos na minha segunda vida. Uma vida completamente distante da primeira. A segunda é mais simples, mais "do coração e da alma", é na qual me sinto mais "eu". As consequências dos meus actos são punidas com sabedoria e com dignidade. Posso andar descalça pela cidade que ninguém me olha como se não tivesse dinheiro para um par de sapatos. Posso ir a um restaurante Japonês e comer com as mãos que ninguém, naquela sala, me repugnará e me acusará de falta de modos. Posso estar sozinha na companhia de muita gente sem que ninguém se questione. 
É certo que o mundo onde vivo, realmente, é o primeiro. Com a significativa diferença de que, literalmente, são mais as vezes que me sinto auspiciosa no segundo do que no primeiro. Isto porque, num deles eu posso ser o que realmente quero, fazer o que sinto sem medo do que me possa acontecer a seguir. Porquê? Porque basta abrir os olhos para que tudo acabe e fechá-los, todas as noites, para que ele me volte a abraçar. Tenho, todos os dias, a oportunidade de mergulhar em traços perfeitos onde toda gente quer caminhar.
Tenho dois mundos onde viver e sinto, honestamente, que o meu mundo é todas as noites e não todos os dias.
Mais tarde ou mais cedo, um acabará por extinguir-se. Espero que seja o primeiro, onde toda gente aponta o dedo como se fosse perfeito e onde a morte magoa e as pessoas agem como se fossem viver eternamente quando, totalmente, estão erradas.
O que sinto, de facto, é que todos temos dois mundos, duas vidas, duas formas de agir, de parecer e de prevalecer. Contudo, apenas uma alma e um coração, muitas vezes, partidos em dois, mas singulares na forma de sentir e, principalmente, de amar.

terça-feira, 4 de junho de 2013

A vida do avesso em 30 segundos

Aquele tempo de espera estava a matar-me por dentro. O «tic-tac» do relógio multiplicava-se na sequência de um batimento cardíaco que parecia obrigar o meu coração a saltar do peito, forçando-me a tirar o relógio do pulso. A sala estava repleta de gente que esperava, hipoteticamente, o mesmo que eu: Noticias. Fossem elas quais fossem, o rosto desesperado de todos os que preenchiam a sala reflectia-se na ânsia desmoralizadora de recebê-las. Cada vez que uma porta se abria, cada vez que alguém suspirava mais forte ou qualquer tipo de ruído que soasse a novidade, todos se centravam e erguiam o olhar na procura constante de algo que os levasse a uma resposta. O calor humano era cada vez mais intenso e, junto com o desânimo, começava a estampar-se nos rostos a impotência de esperar muito mais. Uma porta abriu-se mas eu esperei, com medo e desânimo, que não fossem notícias para mim. Para meu temor, os passos erguiam-se na minha direcção até que consegui ver uns sapatos pretos, brilhantes como o luar, a pararem mesmo junto a mim. A voz educada da mulher loira de olhos azuis fez-me estremecer de receio.

– Trago-lhe notícias. - Disse ela.
Limitei-me a limpar as lágrimas envergonhadas que me escorriam pelo rosto e, numa lufada de oxigénio, procurei arrancar, das entranhas do meu corpo, toda a força existente dentro dele para aguentar toda a pressão daquele momento.
- Reconhece esta fotografia? – Seguida destas palavras a enfermeira ergueu, na minha direcção, a fotografia onde ambos, eu e o Tomás, estávamos a comer um gelado no nosso último dia de férias, em cuba.
- Sim, reconheço perfeitamente. – Queria ter forças para perguntar-lhe o que realmente queria saber mas, de facto, a ausência destas parecia cada vez mais real.
A enfermeira aninhou-se, junto aos meus joelhos e, com os olhos cheios de lágrimas, disse-me:
-Juro-lhe que nunca fizemos tanto para salvar uma pessoa. Ele lutou como nenhum ser humano tinha lutado, antes, pela vida. Contudo, não sobreviveu aos ferimentos. Lamento muito. Antes de sucumbir exclamou o nome Beatriz.

Beatriz era o nome da nossa futura filha, a que eu ainda carregava no corpo. Agora, era tudo que me restava, como fruto de uma sombra – a sombra de um passado perfeito que, em momentos breves, se tornara num autêntico pesadelo.

A enfermeira abraçou-me como se sofresse comigo e embalou o meu pranto até que eu perdesse todas as forças para continuar a chorar. A morte era uma novidade completamente prematura para mim. 

quinta-feira, 16 de maio de 2013

O preço da autenticidade




A ousadia de ser diferente pode levar-nos à loucura. A comodidade da igualdade torna-nos análogos e vulgares. A segunda pode ser mais segura, mais confortável e preenchida pela companhia de quem nos idolatra, consumindo-nos como símbolos e exemplos a seguir. A primeira, embora possivelmente mais solitária, difícil e aparentemente árdua e trabalhosa, obriga-nos à autenticidade e a mostrar valentia que, como é óbvio, mais tarde ou mais cedo é compensada pela felicidade momentânea. Cabe a cada um decidir se quer ser apenas mais um a caminhar por ruas já construídas e caminhos já decalcados ou permanecer na memória dos comuns como um louco que traçou o seu próprio caminho e desenhou o seu próprio mapa com a promessa de um futuro nunca antes percorrido.

Já vos falei do que tenho saudade?

Tenho saudade. 
Tenho saudade da nostalgia que me embriagava de recordações passageiras sobre um passado prematuramente próximo. 
Tenho saudade dos elementos constituintes de todas as sessões de afeições marcantes - esses seres repletos de afectos com quem partilhei terríveis ressacas sentimentais.
Tenho saudade da repulsa despertada pela consciência constantemente corrigida pela razão mais honesta. Tenho saudade de olhar para o caminho que ficou para trás e sentir que, felizmente, já não lhe pertenço. 
Tenho saudade de sentir o horizonte como o único caminho possível dentro de um mar de possibilidades perpétuas. 
Tenho saudade de olhar os olhos enxaguados da criança que fui e perceber que a terrível queda do meu gelado preferido seria a única coisa que me provocaria o choro, eternamente. 
Tenho saudade de penetrar nas cicatrizes do meu cérebro e perceber a brevidade de todas elas. 
Tenho saudade de adormecer na companhia de um abraço apertado, no colo de um sorriso honesto. 
Aos poucos, tudo o que nos compõe consome-nos como se nada até então fizesse qualquer sentido, tal como tudo o que ainda nos espera. É como se todos os caminhos fossem dar aos mesmos sítios e como se nada, para além do que somos, fosse tão imperfeito. Muito honestamente, a saudade está a matar-me. 
Já vos falei do que tenho saudade?

sábado, 9 de março de 2013

O diário do Planeta Terra

"Aquela conversa foi como uma lufada de oxigénio para os meus pulmões.

Há muito tempo que não me proporcionavam momentos como o de hoje. Aliás, há mais de um século que me mantenho solitáriamente resguardada de toda a lixeira de sentimentos humanamente desumanos.
A terra está escassa de pessoas inteligentes e sensíveis. Há centenas de anos que a espécie humana escasseou e, hoje, é maior o número de prédios do que habitantes e maior o número de máquinas do que pessoas.
Para que percebam o que digo, por exemplo, há meses que não contacto com um ser humano. O meu patrão é um robbot e, para falar a verdade, estou a ficar preocupada porque ontem dei por mim a desabafar com o microondas. Não é que me sinta louca por isso, o problema está no facto de ele me ter respondido. 
* * *
Mas, para meu espanto, hoje eu consegui encontra um ser igual a mim. Um ser que sente com o coração e que pensa com a cabeça. Um ser humano que respira e que, embora imortal, se assemelha aos nossos ancestrais. E, embora desconhecido, eu senti que estava a comunicar com um amigo de longa data, com um irmão, com um ser igual a mim.
Dei por mim a contemplar o simples movimento que os seus lábios faziam ao tornar as palavras audíveis e conseguia decifrar, através das suas palavras, o significado de cada cicatriz que ele apresentava no rosto. Tomara, em tempos, posse nos comandos militares e participara em várias missões ao planeta Marte. Embora novo, acabara por se reformar devido ao cansaço e, tal como o próprio me disse "devido à necessidade de viver como um ser minimamente humano".
A conversa durou cerca de 4 minutos e eu consegui conhecer-lhe a vida inteira.Posso ainda dizer que a partir do segundo minuto de conversa eu tive a sensação de que o conhecia o suficiente para poder amá-lo eternamente."




Saudade




Vou ser o mais simples e breve nas palavras.
Hoje, mais do que nunca, acordei com aquela vontade estranha em acreditar que, ao abrir os olhos, tu estarias ao pé da cama e me abraçarias mal me levantasse. Carreguei, também, durante todo o dia, a ideia estúpida de que, estivesse eu onde estivesse, tu estarias comigo, a perseguir-me por entre os carros e a observar tudo o que eu fizesse. Senti o teu perfume e, para tornar tudo ainda mais dolorosamente saudoso, ao regressar do trabalho, passou na rádio aquela música.
Honestamente, hoje foi um dia difícil. Semelhante a todos aqueles em que respiro, parecido com os restantes em que me recuso a fazê-lo e gémeo de todos aqueles em que simplesmente quero morrer na esperança insensata de que, ao fazê-lo, encontrar-te-ei, por fim.
Há dias em que mais valia não acordar e, literalmente, hoje foi um deles. Não é que recordar-te seja mau, é apenas a dor de saber que fazê-lo é a única forma de voltar sentir-te e a ter-te.
Torna-se difícil viver quando o único motivo que tinha para fazê-lo, simplesmente, foi-se.
Estejas onde estiveres, amo-te.


P.S. Acredito que amanhã tudo seja diferente.


28 de janeiro de 2013

Reflexo



"É estranho como, ás vezes, eu sinto que amo tudo em ti e, outras, eu sinto que és apenas o reflexo de tudo o que eu já amei.
O que realmente eu precinto é que o passado parece ter sido de tal forma perfeito e intenso que, no presente, não há nada que me prenda. Nada que nos fassa realmente querer viver. Os momentos parecem repetitivos, as palavras demasiado vulgares, os lugares vazios, as pessoas ausentes e, infinitamente, eu sinto-me sozinha.
Todas as noites, esteja cansada ou sem sono, eu pouso a cabeça na almofada e penso como era quando eu não dormia porque passava a noite a pensar em ti. O que realmente eu sinto é que amo demais e exijo demais aquilo que, talvez, eu já não mereço. Mas eu amo-te. E tu sabes disso."

Lutar Vs Desistir

O verdadeiro capitão não deixa de sê-lo por abandonar o navio caso este se esteja afundar. Não deixa de ser mais nobre ou mais respeitado por isso. Porque quando não há condições nem conjuntura para lutar saudavelmente, até o guerreiro mais forte abandona a batalha, mesmo que seja pela mão dos companheiros, ou pela mão divina. A Guerra não se perde só porque, em algumas batalhas, os soldados tenham de abandonar os seus postos e lutar pela própria vida, ou pela dos seus companheiros. Assumir e admitir a derrota é uma virtude. Não que esta deva ser aceite de animo leve ou de consciência puramente tranquila. Mas há que assumir quando a alma padece de factos e de oportunidades perdidas. Não é por desistir que nos seja merecida a atribuição da palavra covarde. Covarde sim, é aquele que desiste antes de tentar. Covarde sim, é aquele que não tenta, não persiste, não luta. Não é covarde aquele que desiste depois de esgotar todas as suas forças.
O importante é saber que demos tudo naquele momento e que, mesmo não tendo o final desejado, não foi por falta de esforço e de fé ou confiança. A consciência limpa é uma mais valia para considerar-se um vencedor, mesmo que aos olhos dos outros isso não transpareça.

Mais vale perder uma batalha e retomar as forças para a Guerra que perder a Guerra por esgotar as forças numa simples batalha. Porque eu acredito, sinceramente, que o verdadeiro Guerreiro é aquele que nunca desiste de acreditar na vitória mas que aceita a derrota, caso esta seja merecida.

 
21 de Janeiro de 2013

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

insónia de bipolaridade







Sabes quando constróis e alimentas de tal forma uma mentira que, quanto mais o tempo passa, mais necessidade tens de torná-la credível e, por medo, ela torna-se inevitavelmente a tua única verdade?
Quando isso acontece, na tua mente, cria-se a ideia absurda de que tudo sempre foi verdade, de que tudo é realmente verdade. Mas não foi, não é e, claro, nunca será.
É como se, hoje, existissem, dentro de mim, duas pessoas totalmente diferentes. Uma que me faz lutar, outra que me faz desistir. Uma que me leva a pensar, outra que me leva a sentir. Uma que me leva há razão, outra que, pura e simplesmente, faz-me exaltar as emoções e os sentimentos sem que, sequer, me deixe usar a mente.
São dois seres que lutam diariamente para que apenas um exista. E, no fundo, o que eu sinto, do fundo do coração, é que ambos se amam e que, infelizmente, jamais sobreviverão sozinhos.
Porém, mais tarde ou mais cedo, algum terá de partir. Para onde quer que seja.
O mais difícil é perceber com qual deles me identifico. Não sei, sinceramente, se sobreviverei sem um ou sem a outro.
E quando essa é a única forma de viver (...)
A vida é mesmo isto, um paradoxo de contrariedades perdidas entre o 8 e o 80 numa medida incerta entre o certo e o errado.
Louca ou Lúcida, são palavras sinceras que não deixam de o ser só porque não fazem sentido.
Porque nada, neste momento, parece fazê-lo.
Obrigado.

O poder do tempo

O tempo passa e, com ele, leva tudo. Os acontecimentos vividos num determinado momento vivem-se com uma certa intensidade e, quando o tempo passa, o que foi recebido com euforia, agora, torna-se mais breve sendo, por vezes, recebido com um certo tom de desprezo e empatia.
O que em tempos foi visto com uma determinada perfeição acaba por perder o encanto aos nossos olhos.
A ideia de "novidade", aquela que faz o coração bater com irregularidade e, de certa forma, desperta em nós sentimentos estranhos, também se apaga com o tempo e a repetição dos acontecimentos, dos sentimentos, das emoções faz com que tudo se torne mais suave e, até, monótono (...)
O friozinho do primeiro encontro, a ansiedade de conhecer alguém, o primeiro toque, o primeiro beijo, o primeiro desgosto, a primeira "facada", tudo é vivido de forma igual. Vivido de forma diferente é o que sucede depois de então. A repetição das coisas fá-las parecerem menos dolorosas ou felizes, por vezes, até já "familiares".
A tudo isto se chama experiência.
Por isso é que existem pessoas mais frias do que outras. Também, por isso é que a mesma música, a mesma paisagem, o mesmo sentimento, a mesma situação (...) As mesmas coisas podem ser interpretadas de forma diferente. Tudo é vivido de diferente forma, por pessoas diferentes.
Isto deve-se ao facto de todos termos um passado, um presente e planos para um futuro. Caso contrário estaríamos mortos.