sábado, 4 de fevereiro de 2012

Um final (in)feliz


Respira!

Os pulmões, aparentemente vazios, encheram-se de ar como se alguém me obrigasse a fazê-lo.
-Por favor volta! - Uma voz gritava, como se gritasse de um túnel. Uma voz tão familiar como as que ouvia em silêncio . Sentia a respiração de todos aqueles que me rodeavam, como se ansiassem por algo que não eu.

Havia algo, dentro de mim, que ainda me fazia mover. Sentia o corpo contorcer-se de uma dor tão autentica que era como se toda a gente desejasse senti-la. Parte de mim contorcia-se enquanto outra parte vagueava perdida sobre uma neblina de silêncio e tranquilidade. Este contraste era errado e confuso, no entanto, mantinha-me viva.


-Não me deixes por favor. - Alguém sussurrou ao meu ouvido. Eu conhecia aquele tom, mas não conseguia reagir àquelas palavras.
-Por favor, deixe isto connosco. - Desta vez era a voz de alguém que nunca ouvira na minha vida, uma voz tão fria como o frio que sentia.
Luta!
A voz na minha cabeça gritava tão alto, quase como se fosse ela que estivesse a sofrer, e não eu.
O meu corpo não cedia á dor mas esta parecia mais forte do que eu. Sentia a chuva a escorrer-me pelo rosto e o calor humano a desaparecer.  
Dois pares de mãos quentes rodearam-me o pescoço e as pernas e ergueram-no pousando-o, de seguida, em algo seco.
O Silêncio deste lugar debatia-se com o murmúrio das vozes que conseguia ouvir cada vez mais ao longe. Ficavam todos para trás. Todos menos ele. Mesmo inconsciente, aqueles passos acelerados eram-me familiares.
-Por favor, eu tenho o direito de estar aqui . -Aquelas palavras saíram tão secas que pareciam saídas de um filme de "Cowboy's" e a dor percorria cada uma como se fosse a última.

Por favor deixem-no !

A voz na minha cabeça implorava solenemente para que o deixassem ficar.
Alguém falou mas eu já não consegui juntar as palavras de forma a compreendê-las. O ar estava a escapar-me novamente dos pulmões. O meu corpo parecia leve demais para estar deitado.
Um "tiii tiii tii" suou de surdina e os passos apressaram-se na minha direcção.
- À minha contagem - a voz masculina estava tão perto que consegui perceber com clareza o que dissera -Um, dois, tr...
Um choque percorreu o meu corpo fazendo-o erguer-se da superfície. Este, repetiu-se inúmeras vezes, no entanto, em vão:  o meu corpo voltou a ceder á dor. Este ritual repetiu-se infinitas vezes até eu perder a noção do tempo.
Um silêncio maciço e intacto fez-se sentir em toda a sala.
-Lamento imenso, tentamos fazer de tudo mas... -o meu corpo arrepiou-se com aquelas palavras-... ela não resistiu. -A voz do médico suou como a derrota mais triste e dolorosa da sua vida.

Onde vão todos? NÃOOOOOOO !

A voz na minha cabeça gritava contra as paredes do meu cérebro contorcendo-se de dor.
Uma clareza suave preencheu-me a memória e uma série de imagens circulavam, lentamente, formando uma espécie de curta metragem - a da minha vida.
O meu corpo mantinha-se, imóvel e frio, sobre a maca ensopada pela água e pelas lágrimas de alguém que o abraçava e batia, repetidamente, no meu peito dizendo:
-Não me deixes, não me deixes, não me deixes.
Eu sentia-me erguer da maca e acariciar-lhe a face inundada em lágrimas, no entanto, o meu corpo não se moveu,  mantendo-se imóvel o tempo suficiente para eu perceber que ninguém sentia a minha presença naquele lugar.
-Não me deixes ... Não, Não, Não... me... deixes..tu prometeste... tu - A sua voz tornara-se fraca e incompreendida.
Ele agarrava o meu corpo de tal forma que, se ainda o senti-se, talvez me queixasse de dor.
Quanto tempo demorará ele a perceber que estou aqui?
O mesmo tempo que tu demorarás a perceber que não estás! Chegou a hora de partires.

Ignorei a realidade e fiz por não ouvir mais nada. Contornei a maca onde o meu corpo dormia e dirigi-me a ele - ao ser que sofria pela minha ausência.

Ele sente-se culpado pela tua
morte, queria ter partido contigo.

Cala-te! Deixa-nos em paz!
O meu pensamento fê-la ceder e o silêncio regressou, finalmente.
Abracei-o com a força do vento e, mesmo sabendo que ele não o sentia, acreditei que soubesse o quanto o amara e o quanto o fizera feliz.
Algo escapou-me por entre os dedos e a escuridão da noite deu lugar á eternidade de uma luz forte.

-Sê bem vinda ao paraíso.

2 comentários:

  1. Infelizmente estes finais infelizes são o pão nosso de cada dia. As tuas palavras tocam no coração de que ja passou por estas experiências, e deixam muita gente a pensar porquê que nos acontece isto. A dor de perder alguém querido só se explica quando se passa per esses sentimentos. Quem diz que imagina, não faz a menor ideia.
    Gosto das tuas palavras, continua a escrever assim e eu continuarei a ler.
    Muitos parabéns....

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    1. Sim, é verdade que não há nada como viver as experiências para saber descrevê-las de uma forma totalmente diferente daqueles que apenas tentam imaginar como era se tivessem passado.
      Há que refletir sobre este tipo de situação para que o ser humano viva cada dia sabendo que pode ser o último e que, como tal, deve aproveitar ao máximo tudo o que lhe é propórcionado.
      Muito obrigado pelo seu comentário.
      Continuarei a fazer o melhor que conseguir »«

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"Tudo o que escrevo não está escrito em livro algum senão no meu, tudo o que sinto não é sentido por mais pessoa senão a minha. Um obrigado do fundo do coração a todos aqueles que fazem deste sonho uma realidade." Bianca D'Sousa