terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

(Des)lembrada - Capitulo I

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O meu coração está a bater como jamais batera e, ainda que perdido, eu sinto-o encaixado no peito.
As minhas pernas correm como jamais correram antes e, mesmo sem saber para onde se dirigem, elas fogem de algo que desconheço.
As minhas roupas, sujas e gastas, rasgam-se a cada passada e a minha alma, feita em pedaços, fica para trás, aos poucos, como o rasto de alguém que não eu. 
Sinto a saliva a evaporar dos lábios e o ar a desaparecer por entre os cactos do deserto.
A imagem desfocada de tudo o que percorri para chegar àquele lugar torna-se cada vez mais presente. Mas que lugar?
Certamente a falta de água começa a manifestar-se em delírios da minha personalidade frágil e medrosa.

Corre, corre, corre !

Mas correr para onde?

Não interessa para onde, segue o teu coração, melhor mapa do que esse nunca vais encontrar.
A voz na minha cabeça desvanecia a cada palavra, era como se, tal como eu, ela estivesse perdida.
As pernas falharam e, juntamente com a botija de água vazia, o meu corpo cedeu e caiu.
Sentia-me tão leve e desorientada que era como se se tratasse de uma folha de outono a cair sobre a vegetação, não eu .
Na minha cabeça alguém implorava para que me levantasse, exigindo que o fizesse o mais rápido possível. No entanto, o meu corpo negava qualquer tentativa, da minha parte, de fazê-lo mover-se.
Por breves instantes senti-me completamente sozinha, eu e o sol secante do deserto americano. Eu e os cactos verdejantes, eu e os insectos e os lagartos camuflados.
O meu estado de delírio tinha desaparecido por uns segundos, no entanto, voltára: Na minha cabeça passavam fragmentos da minha vida, em pequenas imagens distorcidas. Era como se todos se estivessem a despedir de mim, até eu própria.

LEVANTA-TE ! FOGE !

Quando dei por mim o meu corpo encontrava-se verticalmente tenso, as minhas mãos assemelham-se a garras e sinto a pele encrispar-se como a pelugem de um leopardo. Os meus olhos arregalaram-se e, sem mais nem menos, uma vaga de adrenalina compensou a falta de nutrientes, fazendo-me sentir animalescamente forte.
As minhas pernas começaram a correr, mesmo antes de pensar em fazê-lo. Eu agia sem pensar, sem querer, sem exigir a mim mesma o que quer que seja.
Corria e fugia, fugia e corria.
Mas, de repente, não ouvia apenas os meus passos perdidos - eu ganhara companhia.
Sim, eu sinto alguém a correr comigo, a correr comigo? Não! Alguém corre para mim, contra mim.
Antes do meu pensamento terminar, mesmo antes de fazê-lo, algo fez-me recuar e parar.
Um braço firme e pesado entrelaçou-me a cintura e travou-me.
Sem me deixar pronunciar o que quer que fosse, o homem moreno de olhos verdes, tapou-me a boca com uma das suas mãos e gritou:
-Já a tenho comigo! - a voz grossa e o tom determinado daquele homem fez-me tremer.

Talvez nunca soubesse qual o final daquela emboscada. No entanto, fosse como fosse, o meu lugar não era ali e eu tinha de sair.
Só há duas maneiras de fazê-lo: ceder e morrer ou lutar e viver.

A escolha está automaticamente feita !
(continua)

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Um final (in)feliz


Respira!

Os pulmões, aparentemente vazios, encheram-se de ar como se alguém me obrigasse a fazê-lo.
-Por favor volta! - Uma voz gritava, como se gritasse de um túnel. Uma voz tão familiar como as que ouvia em silêncio . Sentia a respiração de todos aqueles que me rodeavam, como se ansiassem por algo que não eu.

Havia algo, dentro de mim, que ainda me fazia mover. Sentia o corpo contorcer-se de uma dor tão autentica que era como se toda a gente desejasse senti-la. Parte de mim contorcia-se enquanto outra parte vagueava perdida sobre uma neblina de silêncio e tranquilidade. Este contraste era errado e confuso, no entanto, mantinha-me viva.


-Não me deixes por favor. - Alguém sussurrou ao meu ouvido. Eu conhecia aquele tom, mas não conseguia reagir àquelas palavras.
-Por favor, deixe isto connosco. - Desta vez era a voz de alguém que nunca ouvira na minha vida, uma voz tão fria como o frio que sentia.
Luta!
A voz na minha cabeça gritava tão alto, quase como se fosse ela que estivesse a sofrer, e não eu.
O meu corpo não cedia á dor mas esta parecia mais forte do que eu. Sentia a chuva a escorrer-me pelo rosto e o calor humano a desaparecer.  
Dois pares de mãos quentes rodearam-me o pescoço e as pernas e ergueram-no pousando-o, de seguida, em algo seco.
O Silêncio deste lugar debatia-se com o murmúrio das vozes que conseguia ouvir cada vez mais ao longe. Ficavam todos para trás. Todos menos ele. Mesmo inconsciente, aqueles passos acelerados eram-me familiares.
-Por favor, eu tenho o direito de estar aqui . -Aquelas palavras saíram tão secas que pareciam saídas de um filme de "Cowboy's" e a dor percorria cada uma como se fosse a última.

Por favor deixem-no !

A voz na minha cabeça implorava solenemente para que o deixassem ficar.
Alguém falou mas eu já não consegui juntar as palavras de forma a compreendê-las. O ar estava a escapar-me novamente dos pulmões. O meu corpo parecia leve demais para estar deitado.
Um "tiii tiii tii" suou de surdina e os passos apressaram-se na minha direcção.
- À minha contagem - a voz masculina estava tão perto que consegui perceber com clareza o que dissera -Um, dois, tr...
Um choque percorreu o meu corpo fazendo-o erguer-se da superfície. Este, repetiu-se inúmeras vezes, no entanto, em vão:  o meu corpo voltou a ceder á dor. Este ritual repetiu-se infinitas vezes até eu perder a noção do tempo.
Um silêncio maciço e intacto fez-se sentir em toda a sala.
-Lamento imenso, tentamos fazer de tudo mas... -o meu corpo arrepiou-se com aquelas palavras-... ela não resistiu. -A voz do médico suou como a derrota mais triste e dolorosa da sua vida.

Onde vão todos? NÃOOOOOOO !

A voz na minha cabeça gritava contra as paredes do meu cérebro contorcendo-se de dor.
Uma clareza suave preencheu-me a memória e uma série de imagens circulavam, lentamente, formando uma espécie de curta metragem - a da minha vida.
O meu corpo mantinha-se, imóvel e frio, sobre a maca ensopada pela água e pelas lágrimas de alguém que o abraçava e batia, repetidamente, no meu peito dizendo:
-Não me deixes, não me deixes, não me deixes.
Eu sentia-me erguer da maca e acariciar-lhe a face inundada em lágrimas, no entanto, o meu corpo não se moveu,  mantendo-se imóvel o tempo suficiente para eu perceber que ninguém sentia a minha presença naquele lugar.
-Não me deixes ... Não, Não, Não... me... deixes..tu prometeste... tu - A sua voz tornara-se fraca e incompreendida.
Ele agarrava o meu corpo de tal forma que, se ainda o senti-se, talvez me queixasse de dor.
Quanto tempo demorará ele a perceber que estou aqui?
O mesmo tempo que tu demorarás a perceber que não estás! Chegou a hora de partires.

Ignorei a realidade e fiz por não ouvir mais nada. Contornei a maca onde o meu corpo dormia e dirigi-me a ele - ao ser que sofria pela minha ausência.

Ele sente-se culpado pela tua
morte, queria ter partido contigo.

Cala-te! Deixa-nos em paz!
O meu pensamento fê-la ceder e o silêncio regressou, finalmente.
Abracei-o com a força do vento e, mesmo sabendo que ele não o sentia, acreditei que soubesse o quanto o amara e o quanto o fizera feliz.
Algo escapou-me por entre os dedos e a escuridão da noite deu lugar á eternidade de uma luz forte.

-Sê bem vinda ao paraíso.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Despedida



-Olha para mim!-exigiu.
O olhar dele era de tanta repulsa e tristeza, acompanhadas de uma raiva tão nobre, que não conseguí manter o meu olhar erguido por muito tempo.
-Deixa-me partir. – As minhas palavras eram tão verdadeiramente falsas que alguém gritava para que não as tivesse pronunciado.
A mão que me apertava contra a parede largou-me e o braço caiu-me sobre o corpo paralisado. Era como se estivesse a um passo do abismo e me tivessem ajudado a cair.
Ao perceber o medo que começava a invadir o meu corpo, sem dizer uma única palavra, ele pegou no meu queixo com as suas mãos, morenas e quentes, e exigiu que o olhasse novamente. Aquele olhar fazia-me tremer, de tal modo que os meus olhos fecharam-se enfraquecidos e aterrorizados. Uma vaga de horror apoderou-se de mim seguida de uma compaixão humilde e, enquanto as lágrimas começavam a escorrer me pelo rosto, os braços dele rodearam o meu corpo, apoderando-se de mim.
-Não tenhas medo ... – sussurrou com a voz trémula - ...não vou deixar que caias sozinha.
Tinha acabado de ouvir aquilo que mais queria mas, simultâneamente, aquilo que não deveria querer.

Deixa de ser patética! Queres que ele parta contigo, tanto como ele.
Os pensamentos denunciavam-me a cada segundo.

Cala-te. Exigi a mim mesma.

Permanecemos naquele ritual durante meio minuto. Os braços, quentes e fortes, que se debatiam contra a minha pele, fria e pálida, evidenciavam o contraste das nossas diferenças.
-Espera aqui um minuto, por favor. –pediu colocando-me no chão,
O tempo de eu fechar e abrir os olhos foi o suficiente para voltar a tê-lo ao meu lado. Desta vez acompanhado - por uma mala de viagem.  Ao ver a minha cara de pasmo um largo sorriso rasgou-lhe o rosto e as suas palavras saíram como uma lufada de ar fresco:
-Há espaço para mim na tua vida? – a pergunta dele era tão retórica quanto a que lhe fiz de seguida.
-Porque não haveria de existir?

No suspiro seguinte tinha-me enterrada contra o peito forte e volumoso do homem que seria, finalmente, meu para o resto da vida.

O que parecia uma inevitável despedida deu lugar a um eterno reencontro. Porque o meu desejo sempre disse: Um amor eterno não começa duas vezes.