terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O livro da minha vida












As experiências fazem da vida um livro de recordações imperfeitas e inacabadas. Porque a vida, tal como a construção de um livro, inicia-se com a planificação de um futuro. Futuro esse incerto e improvisado pois, caso assim não fosse, chamar-se-ia presente. Por vezes, a narrativa parece perfeita e, precisamente aí, falha. A vida, tal como um livro, não tem que ser perfeita. Caso assim fosse, a vid
a seria, honestamente, banal. Porquê? Porque a perfeição existe porque a imperfeição nasceu com ela. Quem não conhece uma delas, jamais descobrirá o valor da outra. Por isso mesmo, a vida não deve ser sinónimo de perfeição. Porém sim, devem fazer parte dela, momentos de perfeição. Momentos, embora fugazes e curtos, perfeitos de tal forma que se intensificam como lendas e mitos. A sua singularidade parece jamais ser ultrapassada. Isto é, quando algo de perfeito acontece e a sua perfeição parece imaculada, dificilmente surgirá, na vida, um momento que venha a substituir este. E quando isso acontece, esse momento deixa de sê-lo em detrimento da novidade. Por isto, na vida só um momento é perfeito: a consciencialização de que a vida não o é. Só assim conseguiremos viver de forma construtiva, aceitando o pouco que temos e valorizando o todo que nos falta. Pois, quem espera muito, sai sempre desiludida. Já quem não espera nada, sai sempre surpreendido. Contudo, tal como nos livros, na vida há folhas soltas que nunca se encontram. Porém, há sempre a possibilidade de tentar fazê-lo. É simplesmente a escolha entre lutar por um final feliz ou viver em conformidade com a incógnita de um possível final que, só por si, já parece triste.
É que a vida é muito mais do que uma palavra. A vida é feita de Momentos, onde, em determinadas circunstancias surgem pessoas de quem brota a partilha de palavras, de gestos a partir dos quais surgem laços e uniões aparentemente indissociáveis (...) A vida é um conjunto aleatório de emoções vividas em determinada idade e em determinada altura consoante determinada situação e acontecimento. O que determina a vida fácil ou difícil, aborrecida ou emocionante e feliz ou triste é a forma como cada um se perspectiva a si próprio e a relação com os outros. É fulcral se este faz de si a personagem principal do seu livro ou a única personagem dele.
Pensa: O monólogo, por vezes, é importante, porém, não tem que ser a tua história. A vida é feita, essencialmente, de partilha.
Por isto e muito mais, vive, luta, arrisca mas, principalmente, ama-te a ti e ama alguém ! 

domingo, 7 de outubro de 2012

A dor de quem fica


"Nunca na minha vida 30 segundos demoraram tanto tempo. Jamais um elevador demorara  tal eternidade.
Corri pelo corredor fora em direcção ao quarto e, ao vê-lo, o mundo desabou.
Qualquer tentativa,  da minha parte, em tentar acreditar que tudo não passaria de um pesadelo, foi aniquilada naquele preciso momento. Os meus olhos confirmavam tudo o que até então eu tentava consumir como um possível engano.
"É mesmo ele". - pensei.
Era como se eu estivesse a viver um pesadelo e estivesse naquela fase em que toda a gente espera que alguém a acorde para não ter de sofrer mais. Mas, na realidade, ninguém me acordou.
Descolei do chão e segui, a passos lentos e fracos, até à cama onde, imaculadamente, o Tomás estava deitado : aparentemente parecia estar a dormir à meses. A minha esperança estúpida em acreditar que tudo não passaria de um susto tornara-se, mais uma vez, aparentemente credível, sustentando-se de pequenos pormenores inventados pela minha cabeça.
Pousei, de leve, a minha mão sobre a dele e a minha pele arrepiou-se ao sentir tal frieza. Aquele que sempre fora o mais forte, o mais caloroso e o mais guerreiro, agora, transparecia uma impotência extremamente realista.

 - Eu sei que estás aí e, por isso, eu preciso que me oiças antes que seja tarde demais. - há medida que tentava falar, sentia as minhas palavras fugirem, como se, subitamente, eu estivesse a ficar vazia. - Ouve-me Tomás: O que vai ser de mim sem ti? O que vai ser de "nós"? O que vai ser do piano sem o toque dos teus dedos? do meu coração sem as tuas mãos para guiá-lo? do jardim sem os teus cuidados? do cão sem os teus banhos? do gato sem os teus pés ao fundo da cama? O que vai ser da folha de papel eternamente vazia e da tela onde, pacientemente, pintas-te um mar de sonhos? sonhos esses que ainda estão por concretizar.
Tu que me ofereceste o céu. Tu que me mostraste o verdadeiro significado da palavra paraíso e a possível semelhança que este tem com o inferno (...) Por favor, não deixes que me atirem das nuvens. Não me deixes.

Seguido destas palavras manteve-se um silêncio petrificante. A sala foi preenchida pelo vazio da dor e da angustia. Era como se estivesse disposta a qualquer coisa para impedir que partisse.
Eu esperava, ansiosamente, que ele reagisse, que ele abrisse os seus lindos olhos verdes e me sorri-se. Contrariamente a todas as minhas expectativas, ele  permaneceu igual aos meus pesadelos. O meu corpo começava a ficar cada vez mais fraco, aparentemente atropelado pela realidade das circunstancias.
- Independentemente do que vai acontecer eu quero que saibas que... - comprimi os lábios e libertei todo o ar dos meus pulmões através das palavras. -  a minha resposta é sim. Eu aceito casar-me contigo.


E então a realidade tornou-se num grande e doloroso pesadelo. Era como se ele estivesse à espera de ouvir tais palavras para depois, subitamente, partir.
As lágrimas deixaram-me muda  e correram sobre o meu rosto, agora vazio e dilacerado pela dor do momento. Aquele "piiiiiiiiiiiiiii" e o significado dele tornaram-se sufocantes  juntamente com a confusão que se instalou no quarto: os médicos, os enfermeiros.
E, por muito que eu quisesse salvá-lo, eu senti, naquele momento, que obrigá-lo a ficar era um acto de egoísmo. Era como se tivesse lido nos seus lábios a palavra "ADEUS", seguidos de um sorriso.

E até hoje, acreditem, eu só queria poder ter partido com ele, fosse para onde quer que ele estivesse indo, caminhando por onde caminhasse, na companhia de quem fosse, eu só queria ter morrido com ele. Porque na realidade, tudo o que eu era, tudo o que ele, um dia, tivera colocado dentro mim, tudo o que construíra até então, tudo isso, simplesmente: foi-se. "

A plateia levantou-se preenchendo a sala de aplausos e lágrimas. Ela fechou o pequeno diário e transpareceu um leve sorriso a todos. Ela sentia-se feliz porque, de uma forma ou de outra, ela sentira que ele estivera presente em todo o seu discurso e que estes haviam estado, um dia, casados.

domingo, 26 de agosto de 2012

A escolha certa



"-Um dia, vais olhar o reflexo da tua imagem e reconhecer que, embora sejas tu, já não sentes que, de facto, és.
Um dia, vais sentir que o mundo há tua volta mudou completamente e que, embora seja suposto mudares com ele, permaneces igual.
Um dia, quando todos tiverem partido, tu vais perceber que deverias ter esperado por todos eles, em vez de saíres a correr, na esperança de um futuro diferente.

Um dia, quando te fartares de viver, aí tu vais entender o porquê do meu discurso.
Um dia, mesmo perdida, tu vais descobrir que não há caminho traçado, apenas uma série de mapas onde, sozinha, terás de optar por destinos.
Um dia, quando as noites tornarem-se a única forma de conseguires ver o mundo, tu vais perceber como era bom acordar com os raios do sol a rasgar a cortina.
Um dia, quando mais nada restar, para além de recordações quase perdidas e da esperança de um final feliz que nunca mais chega, tu vais perceber que tudo poderia ter sido diferente.
Um dia, quando até essa «esperança» que restava em ti, estiver esgotada, tu vais perceber o quão errada estavas a respeito do "para sempre".
Porque, um dia, tu vais perceber que as leis da natureza existem para ser cumpridas, vais perceber que preferias ter envelhecido, poder amar apenas um homem, ter filhos, casar (...) simplesmente viver 100 anos que sejam e partir, como todos os outros seres humanos.  Porque a eternidade jamais será um privilegio, mas sim, uma maldição. E, caso a escolhas, tal como eu escolhi, jamais poderás voltar atrás.
Mas, até esse dia chegar, só depende de ti fazer com que tudo seja diferente. Por isso: Pensa e escolhe enquanto tens tempo para fazê-lo (…) Ninguém aqui está a importe um prazo. A única coisa que te peço é que penses bem no que te disse.E, lembra te: jamais poderás mudar o que por ti for tomado como uma decisão certa. "

Por mais que as suas palavras fizessem sentido, para ele e para todos eles, elas não interferiam em nada na minha decisão.

-A minha decisão já está tomada, não me importa que todas as coisas se tornem banais, que o sol queime a minha pele ou que as recordações desapareçam até o meu coração congelar. Eu escolhi-te. E jamais te deixarei partir sem mim.

Todos, naquela sala, sabiam que estava determinada. Ele não reagiu ao meu discurso limitando-se a sair pela porta e a esmorecer por entre a floresta densa. O silencio instalou-se como se ninguém soubesse o que dizer.
Por momentos, mais uma vez, sentia que ele não queria a minha presença eternamente na "vida" dele.

-Com o tempo ele vai perceber a tua decisão. Por agora, ele não consegue perceber. Talvez porque ele não teve oportunidade de fazê-la, talvez porque, como tomaram esta decisão por ele, ele entenda que o melhor é permaneceres tal e qual como és. Ele odeia a imortalidade, mas contigo ao seu lado, ele vai aprender a amá-la.
-Oxalá estejas certa. - engoli em seco e deixei o queixo cair sobre as minhas mãos trémulas.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A vampira e o lobisomem


Aquele abraço era tudo o que me restava. O tudo de um nada incerto e vazio. E, embora perdida, aquele abraço fez-me sentir segura dos meus passos quando, na verdade, eu já nem sequer tinha para onde caminhar.
-Se existem anjos da guarda, tu és o meu. – As minhas palavras foram tão credíveis que, no meio de tanta incerteza, elas tornaram-se ainda mais fortes.

Ele limitou-se a fazer o que sempre fizera. Os seus braços fortes e quentes tornaram-se o único lugar do mundo onde eu queria permanecer. Era na presença da sua imagem que eu queria viver. Porque, embora contrariados pela natureza do nosso ser, não havia outra razão para ambos vivermos que não o facto de existirmos um para o outro.
Eu tinha a plena consciência de que era demasiado egoísmo obrigá-lo a permanecer junto a mim e a viver diariamente temendo a minha partida inesperada. 

-Mais tarde ou mais cedo, eu terei de partir, tu sabes disso. Este não é o meu mundo.

Cada vez que lhe tentava explicar o porquê de tais palavras, ele, atropelado pela realidade e procurando esquecer a mesma, limitava-se a abraçar-me até eu sufocar e deixar de sentir o que quer que fosse, para além do seu coração a bater fortemente. No fundo, ambos estávamos a tentar convencer-mo-nos de que algo que, acabaria por acontecer, pudesse não acontecer.

-Enquanto eu sentir o teu coração a bater, eu não vou desistir de ti. – As suas palavras saíram tão frias que a noite gélida dos pólos parecia, agora, mais quente do que nunca. Os seus olhos verdes estavam mais negros do que nunca e a sua mão, enorme e quente, tocava o meu peito, como se procurasse disfarçar, sem sucesso, toda a a dor que sentia ao pensar num adeus eterno.
Ambos sabíamos que o meu coração parara à séculos, contudo, ele fazia-me acreditar, cada vez mais, que este recomeçara a bater e que, jamais, voltaria a parar.
-Ambos pertencemos um ao outro. - Eram as suas palavras, a cada noite.
-Um ao outro. - Limitava-me a repeti-las como se fossem a minha única verdade.
E, a cada dia que passava, eu procurava acreditar, vivamente, na credibilidade de todos os nossos momentos e na possibilidade, embora insensata, verdadeira, de ficarmos juntos para sempre, como se este existisse num mundo onde, hipoteticamente, nada existe.

Mas, enquanto a lua brilhar e o dia da partida não chegar, eu permanecerei assim, feliz com aquele que deveria ser, para mim, um inimigo mortal. Porque, por mais contraditória e impossível que pareça a nossa existência, aos olhos dos outros, aos nossos olhos, não há nada mais certo que tudo isto - um amor proibido mas tão forte que, se não o fosse, muito provavelmente, deixaria de sê-lo.
                                            * * *

Como poderei eu abandonar a razão da minha existência?
E, bem longe, algures nas montanhas, ouviu-se o uivar mais triste e longo de sempre.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Sentida Homenagem

-Estás preparado?
-É claro que estou preparado. - Ainda que incertas, as minhas palavras fizeram-se ouvir de tal forma convincentes, que até convenceram-me de que estava seguro.
Dirigi-me ao centro do palco, onde estava o microfone, regulei-o de forma a conseguir projectar a minha voz e dei o sinal para que abrissem as cortinas.
Ao mirar aquela multidão de gente, em silêncio, as minhas pernas queriam correr para bem longe daquele local. A minha garganta parecia secar a cada segundo, no entanto, algo dentro de mim exigia que estivesse ali e que começasse a falar. Tanto quanto aquela multidão de gente desejosa por ouvir-me.

-Bom, antes demais, queria agradecer, do fundo do meu coração a todos aqueles que me ajudaram, desde o principio, a prestar esta merecida homenagem àquela que foi, para quase todos os presentes, de uma forma ou de outra, uma lutadora, uma grande heroína e, acima de tudo, uma grande mulher. -sentia o meu coração de tal forma a bater no peito que, muito provavelmente, já deveria ter rebentado. Bebi um pouco de água, respirei fundo e prossegui - Como devem calcular, não tem sido nada fácil viver sem a presença da Sofia na minha vida. Em tudo o que vivemos juntos, nestes curtos mas longos 10 anos de casamento, o que mais me admirava nela, para além da sua beleza , era a força e a determinação com que ela sempre encarou os problemas e, muito mais foi a sua força e coragem ao enfrentar a noticia de que teria de despedir-se num pequeno e curto espaço de tempo. De certa forma ela não se despediu de ninguém. Tal como sempre me dissera, ela não acredita que as pessoas partem e nunca mais se vêem. Eu quero acreditar que seja verdade.  
Sei que, todos vocês aqui presentes conheciam-na, de um modo geral, como uma mulher doce e sorridente. A Sofia foi sempre a amiga  presente, a irmã para todas as horas e a filha preocupada que, por vezes, aparentava ser a mão dos próprios pais. A sua capacidade de captar todas as energias e distribui-las a quem precisava era uma capacidade que tornava a Sofia um ser humano único.
Para que vejam o quão corajosa ela foi:  em todas as sessões de Quimioterapia, embora a sofrer por dentro e por fora, a Sofia sorria-me e dizia "já vai passar meu amor, eu estou bem." como se fosse eu que estivesse a sofrer mais do que ela. Aquele sorriso dava-me força, o mesmo sorriso que talvez ela precisasse e que, nem sempre, eu consegui oferecer-lhe.
-Mais uma vez, as minhas palavras falharam e tive de recompor-me para conseguir continuar a falar .-Sabem, lembro-me como se fosse hoje: uma quinta-feira, ao fim da tarde, por volta das 18h e qualquer coisa. Eu estava no jardim a cuidar das roseiras enquanto o Mike (o nosso cão) destruía as minhas luvas de jardinagem. Ela estava no sofá, ao pé da piscina, a ler a revista semanal, quando o telefone tocou e Sofia foi atender.
Continuei no meu hobbie durante algum tempo, tempo esse suficiente para estranhar a demora de Sofia.  Lavei as mãos na piscina e dirigi-me para dentro. Mal olhei o seu rosto e percebi que algo de grave se tinha passado, no entanto, ela sorriu para mim antes de desmaiar. - Sentia todos os olhares daquela sala postos em mim. Todos ouviam o meu discurso de tal forma atentos, que nada os fazia desviar o olhar. Voltei a beber um golo de água e respirei fundo para prosseguir. - E então, desde esse dia, todos os outros dias foram vividos com mais intensidade. Passei a amála ainda mais, a ver como ela era bela, como ela ainda é  bela e será sempre dentro do meu coração e da minha memória. No fundo, o que quero é mostrar a todos vocês a grande mulher que, para além do que vocês sempre conheceram, ela foi, ela é e sempre será. Ao longo do tempo consegui perceber que quando algo que é nosso nos é  retirado, é na sua ausência que reside o seu verdadeiro valor.
Para terminar, queria ler vos algo que a Sofia me entregou, poucos dias antes de partir, e me pediu que vos lesse.

Desci o olhar em direcção á pequena carta que já se encontrava aberta nas minhas mãos trémulas e, sem uma pinta de saliva e os olhos cobertos de lágrimas, comecei a ler:

"Querido Henrique, amados pais e irmãs, bondoso Mike e eternos amigos, companheiros e admiradores: Antes demais, quero justificar o facto de, apenas hoje, ficarem a saber o verdadeiro motivo pelo qual não estou presente: É verdade, há cerca de meio ano foi-me diagnosticada "a doença da moda", da qual resultaria, com 99,9% das probabilidades, a minha partida inesperada. Sei o quão difícil será para vocês aceitarem, com calma e passividade, esta partida do destino. No entanto, lembrem-se sempre da lutadora que eu tentei ser e da mulher eternamente grata pela vida que eu sempre serei. Sejam compreensivos e, se necessário, agarrem-se ás bonitas recordações daquele que foi o nosso passado. Revejam os meus documentarios na televisão, os álbuns de fotografias do meu casamento e todas as fotografias que tirámos juntos. Sei o quão egoísta fui ao ter-vos mentido durante este tempo todo, contudo, acreditem: tempo algum é demasiado para se viver na ignorância da felicidade. - a minha voz cedeu ao poder daquelas palavras, mas em poucos instantes, perante o olhar de todos aqueles que desejavam ouvir aquela carta, eu ganhei forças e continuei.- Não sei ao certo por onde caminharei quando todos vós estiverdes a ouvir estas minhas palavras, transmitidas pelo meu sempre amado e eterno marido, no entanto acreditem que estarei sempre entre vós.
Um muito obrigado, do fundo da minha alma e do meu coração, a todos aqueles que contribuíram, de uma forma ou de outra, para a vida feliz que vivi.
Não encarem esta carta como uma despedida, mas sim como um breve mas demorado até já. "

A sala foi mergulhada pelos aplausos e pelas lágrimas emocionadas de quase todos os presentes. A carta estava completamente borratada pela tinta da caneta com que ela tinha escrito aquelas palavras e as lágrimas com que eu li as mesmas. Encarei aquela multidão que já se encontrava de pé e aplaudia infinitamente por entre assobios e palavras de força e de gratidão.
Os meus olhos arregalaram-se quando, como por magia, no meio daquela vasta multidão, eu vi a silhueta de Sofia que, com um largo sorriso e os olhos cheios de água,  aplaudia na minha direcção e desenhava com os lábios a palavra "Amo-te".
Um sorriso abriu-se no meu rosto como se ela o tivesse pintado. O meu peito encheu-se de felicidade e a saliva, que faltara o tempo todo, voltou.
"Ela sempre cumpriu as suas promessas. Ela vai estar sempre comigo." - pensei.

quinta-feira, 15 de março de 2012

(Des)lembrada - Capitulo II

       *                                                       *                                          *

Não sei quem sou, o que faço aqui ou qual o motivo da minha existência, no entanto, há algo dentro de mim que me faz lutar pelo regresso.
Uma série de imagens passam-me pela memória, como se, todas juntas, compusessem uma história.
Melhor do que uma história, elas constituem a vida de alguém: O nascimento, a infância, o primeiro passo, o primeiro beijo, o primeiro livro, o primeiro filho, o segundo e o terceiro, a solidão e...

-O que faço aqui? - sinto os meus olhos arregalarem-se perante tal pasmo e as palavras cuspirem-se por entre os meus lábios.
As mãos firmes de alguém fizeram-me encostar á superfície e o olhar intimidativo daquele ser desconhecido mas, simultâneamente, familiar fez-me ceder aos instintos controversos da minha memória.

-chiuu, faz pouco barulho Lua.

Ele sabe o meu nome? Como sabe ele o meu nome? mas, qual é o meu nome?

- De onde me conheces? como sabes o meu nome? quem és tu? - o meu coração acelerado acompanhava o ritmo das palavras que saiam sem qualquer coordenação.

-Aclama-te lua, por favor. - o rapaz de olhos castanhos escuros manteve uma das suas mãos firmando-me contra a superficie e espreitava, intervaladamente, pela fenda que se realçava na rocha.
Como me posso eu acalmar? estou num lugar que desconheço, com alguém de desconheço igualmente.
Ao aperceber-se de que as minhas palavras iriam novamente projectar-se, o rapaz, alto e esguio, tapou-me a boca impedindo-me de fazê-lo.

-Escuta com atenção: se não te mantiveres calma e calada vais colocar não só a tua, mas a nossa vida em risco. Quando chegar o momento certo, irei responder-te a todas as perguntas que nessa cabecinha se acumulam. Agora, por favor, mantém-te em silencio ou vou ter de forçar-te a fazê-lo. - a forma com  pronunciara cada palavra fez-me perceber que ambos nos escondíamos de algo ou de alguém e que, provavelmente, a nossa vida estaria mesmo em perigo.
A consciencialização da situação fez-me baixar o olhar e engolir em seco o medo que percorria o meu corpo.

Mantivemo-nos em silencio durante vários minutos, diria horas. Sempre que pressentia que eu iria falar, os olhos arregalavam-se na minha direcção impedindo-me de fazê-lo.
O tempo de pestanejar foi o suficiente para ficar sozinha - ele tinha desaparecido.
O meu coração acelerou-se e o pouco da saliva que restava escasseou.

O vazio deste lugar está a causar-me arrepios!

(continua)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

(Des)lembrada - Capitulo I

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O meu coração está a bater como jamais batera e, ainda que perdido, eu sinto-o encaixado no peito.
As minhas pernas correm como jamais correram antes e, mesmo sem saber para onde se dirigem, elas fogem de algo que desconheço.
As minhas roupas, sujas e gastas, rasgam-se a cada passada e a minha alma, feita em pedaços, fica para trás, aos poucos, como o rasto de alguém que não eu. 
Sinto a saliva a evaporar dos lábios e o ar a desaparecer por entre os cactos do deserto.
A imagem desfocada de tudo o que percorri para chegar àquele lugar torna-se cada vez mais presente. Mas que lugar?
Certamente a falta de água começa a manifestar-se em delírios da minha personalidade frágil e medrosa.

Corre, corre, corre !

Mas correr para onde?

Não interessa para onde, segue o teu coração, melhor mapa do que esse nunca vais encontrar.
A voz na minha cabeça desvanecia a cada palavra, era como se, tal como eu, ela estivesse perdida.
As pernas falharam e, juntamente com a botija de água vazia, o meu corpo cedeu e caiu.
Sentia-me tão leve e desorientada que era como se se tratasse de uma folha de outono a cair sobre a vegetação, não eu .
Na minha cabeça alguém implorava para que me levantasse, exigindo que o fizesse o mais rápido possível. No entanto, o meu corpo negava qualquer tentativa, da minha parte, de fazê-lo mover-se.
Por breves instantes senti-me completamente sozinha, eu e o sol secante do deserto americano. Eu e os cactos verdejantes, eu e os insectos e os lagartos camuflados.
O meu estado de delírio tinha desaparecido por uns segundos, no entanto, voltára: Na minha cabeça passavam fragmentos da minha vida, em pequenas imagens distorcidas. Era como se todos se estivessem a despedir de mim, até eu própria.

LEVANTA-TE ! FOGE !

Quando dei por mim o meu corpo encontrava-se verticalmente tenso, as minhas mãos assemelham-se a garras e sinto a pele encrispar-se como a pelugem de um leopardo. Os meus olhos arregalaram-se e, sem mais nem menos, uma vaga de adrenalina compensou a falta de nutrientes, fazendo-me sentir animalescamente forte.
As minhas pernas começaram a correr, mesmo antes de pensar em fazê-lo. Eu agia sem pensar, sem querer, sem exigir a mim mesma o que quer que seja.
Corria e fugia, fugia e corria.
Mas, de repente, não ouvia apenas os meus passos perdidos - eu ganhara companhia.
Sim, eu sinto alguém a correr comigo, a correr comigo? Não! Alguém corre para mim, contra mim.
Antes do meu pensamento terminar, mesmo antes de fazê-lo, algo fez-me recuar e parar.
Um braço firme e pesado entrelaçou-me a cintura e travou-me.
Sem me deixar pronunciar o que quer que fosse, o homem moreno de olhos verdes, tapou-me a boca com uma das suas mãos e gritou:
-Já a tenho comigo! - a voz grossa e o tom determinado daquele homem fez-me tremer.

Talvez nunca soubesse qual o final daquela emboscada. No entanto, fosse como fosse, o meu lugar não era ali e eu tinha de sair.
Só há duas maneiras de fazê-lo: ceder e morrer ou lutar e viver.

A escolha está automaticamente feita !
(continua)

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Um final (in)feliz


Respira!

Os pulmões, aparentemente vazios, encheram-se de ar como se alguém me obrigasse a fazê-lo.
-Por favor volta! - Uma voz gritava, como se gritasse de um túnel. Uma voz tão familiar como as que ouvia em silêncio . Sentia a respiração de todos aqueles que me rodeavam, como se ansiassem por algo que não eu.

Havia algo, dentro de mim, que ainda me fazia mover. Sentia o corpo contorcer-se de uma dor tão autentica que era como se toda a gente desejasse senti-la. Parte de mim contorcia-se enquanto outra parte vagueava perdida sobre uma neblina de silêncio e tranquilidade. Este contraste era errado e confuso, no entanto, mantinha-me viva.


-Não me deixes por favor. - Alguém sussurrou ao meu ouvido. Eu conhecia aquele tom, mas não conseguia reagir àquelas palavras.
-Por favor, deixe isto connosco. - Desta vez era a voz de alguém que nunca ouvira na minha vida, uma voz tão fria como o frio que sentia.
Luta!
A voz na minha cabeça gritava tão alto, quase como se fosse ela que estivesse a sofrer, e não eu.
O meu corpo não cedia á dor mas esta parecia mais forte do que eu. Sentia a chuva a escorrer-me pelo rosto e o calor humano a desaparecer.  
Dois pares de mãos quentes rodearam-me o pescoço e as pernas e ergueram-no pousando-o, de seguida, em algo seco.
O Silêncio deste lugar debatia-se com o murmúrio das vozes que conseguia ouvir cada vez mais ao longe. Ficavam todos para trás. Todos menos ele. Mesmo inconsciente, aqueles passos acelerados eram-me familiares.
-Por favor, eu tenho o direito de estar aqui . -Aquelas palavras saíram tão secas que pareciam saídas de um filme de "Cowboy's" e a dor percorria cada uma como se fosse a última.

Por favor deixem-no !

A voz na minha cabeça implorava solenemente para que o deixassem ficar.
Alguém falou mas eu já não consegui juntar as palavras de forma a compreendê-las. O ar estava a escapar-me novamente dos pulmões. O meu corpo parecia leve demais para estar deitado.
Um "tiii tiii tii" suou de surdina e os passos apressaram-se na minha direcção.
- À minha contagem - a voz masculina estava tão perto que consegui perceber com clareza o que dissera -Um, dois, tr...
Um choque percorreu o meu corpo fazendo-o erguer-se da superfície. Este, repetiu-se inúmeras vezes, no entanto, em vão:  o meu corpo voltou a ceder á dor. Este ritual repetiu-se infinitas vezes até eu perder a noção do tempo.
Um silêncio maciço e intacto fez-se sentir em toda a sala.
-Lamento imenso, tentamos fazer de tudo mas... -o meu corpo arrepiou-se com aquelas palavras-... ela não resistiu. -A voz do médico suou como a derrota mais triste e dolorosa da sua vida.

Onde vão todos? NÃOOOOOOO !

A voz na minha cabeça gritava contra as paredes do meu cérebro contorcendo-se de dor.
Uma clareza suave preencheu-me a memória e uma série de imagens circulavam, lentamente, formando uma espécie de curta metragem - a da minha vida.
O meu corpo mantinha-se, imóvel e frio, sobre a maca ensopada pela água e pelas lágrimas de alguém que o abraçava e batia, repetidamente, no meu peito dizendo:
-Não me deixes, não me deixes, não me deixes.
Eu sentia-me erguer da maca e acariciar-lhe a face inundada em lágrimas, no entanto, o meu corpo não se moveu,  mantendo-se imóvel o tempo suficiente para eu perceber que ninguém sentia a minha presença naquele lugar.
-Não me deixes ... Não, Não, Não... me... deixes..tu prometeste... tu - A sua voz tornara-se fraca e incompreendida.
Ele agarrava o meu corpo de tal forma que, se ainda o senti-se, talvez me queixasse de dor.
Quanto tempo demorará ele a perceber que estou aqui?
O mesmo tempo que tu demorarás a perceber que não estás! Chegou a hora de partires.

Ignorei a realidade e fiz por não ouvir mais nada. Contornei a maca onde o meu corpo dormia e dirigi-me a ele - ao ser que sofria pela minha ausência.

Ele sente-se culpado pela tua
morte, queria ter partido contigo.

Cala-te! Deixa-nos em paz!
O meu pensamento fê-la ceder e o silêncio regressou, finalmente.
Abracei-o com a força do vento e, mesmo sabendo que ele não o sentia, acreditei que soubesse o quanto o amara e o quanto o fizera feliz.
Algo escapou-me por entre os dedos e a escuridão da noite deu lugar á eternidade de uma luz forte.

-Sê bem vinda ao paraíso.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Despedida



-Olha para mim!-exigiu.
O olhar dele era de tanta repulsa e tristeza, acompanhadas de uma raiva tão nobre, que não conseguí manter o meu olhar erguido por muito tempo.
-Deixa-me partir. – As minhas palavras eram tão verdadeiramente falsas que alguém gritava para que não as tivesse pronunciado.
A mão que me apertava contra a parede largou-me e o braço caiu-me sobre o corpo paralisado. Era como se estivesse a um passo do abismo e me tivessem ajudado a cair.
Ao perceber o medo que começava a invadir o meu corpo, sem dizer uma única palavra, ele pegou no meu queixo com as suas mãos, morenas e quentes, e exigiu que o olhasse novamente. Aquele olhar fazia-me tremer, de tal modo que os meus olhos fecharam-se enfraquecidos e aterrorizados. Uma vaga de horror apoderou-se de mim seguida de uma compaixão humilde e, enquanto as lágrimas começavam a escorrer me pelo rosto, os braços dele rodearam o meu corpo, apoderando-se de mim.
-Não tenhas medo ... – sussurrou com a voz trémula - ...não vou deixar que caias sozinha.
Tinha acabado de ouvir aquilo que mais queria mas, simultâneamente, aquilo que não deveria querer.

Deixa de ser patética! Queres que ele parta contigo, tanto como ele.
Os pensamentos denunciavam-me a cada segundo.

Cala-te. Exigi a mim mesma.

Permanecemos naquele ritual durante meio minuto. Os braços, quentes e fortes, que se debatiam contra a minha pele, fria e pálida, evidenciavam o contraste das nossas diferenças.
-Espera aqui um minuto, por favor. –pediu colocando-me no chão,
O tempo de eu fechar e abrir os olhos foi o suficiente para voltar a tê-lo ao meu lado. Desta vez acompanhado - por uma mala de viagem.  Ao ver a minha cara de pasmo um largo sorriso rasgou-lhe o rosto e as suas palavras saíram como uma lufada de ar fresco:
-Há espaço para mim na tua vida? – a pergunta dele era tão retórica quanto a que lhe fiz de seguida.
-Porque não haveria de existir?

No suspiro seguinte tinha-me enterrada contra o peito forte e volumoso do homem que seria, finalmente, meu para o resto da vida.

O que parecia uma inevitável despedida deu lugar a um eterno reencontro. Porque o meu desejo sempre disse: Um amor eterno não começa duas vezes.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Órfão




Quando acabei de fechar a última mala, bateram á porta.
-Acabei mesmo agora de fazer as malas! - exclamei com um sorriso falso -vamos?
-Tem a certeza de que é isto que quer ? sabe que...
-Chiuuu - sussurrei impedindo-o que continuasse a falar.

Faltava pouco para o por do sol e tinha de apressar-me. Carregamos as centenas de malas vazias e, quando as lágrimas queriam denunciar-me, eu traí-as.

-Espere, eu esqueci me de algo lá em cima.
-Quer que...
-Não! Eu vou lá, já volto. -respondi correndo em direcção á longa escadaria.

Abri a porta, que afinal já estava aberta, escorreguei no tapete que não existia e levantei-me com a força do vento. Depois, corri em direcção ao quarto, aquele onde à anos não conseguia entrar, abri a gaveta e retirei a foto que já não la estava.

Não?

Pois não, a fotografia estava sob a cama mal feita, aquela onde brincava com a minha irmã mais nova.
Peguei a foto e desci sem nunca mais olhar para trás.
É melhor assim!
Sim, talvez fosse melhor.

Antes que voltasse a bombardear-me de perguntas mandei-o calar-se e entrei no grande e velho carro que, um dia, pertenceu aos meus pais.
A viagem foi longa e demorada. Olhava a paisagem e fazia para não pensar em tudo o que deixava para trás. Há medida que o carro se afastava da casa era como se conseguisse sentir as migalhas a cair estrada fora. Como um rasto de tudo o que nunca passou de um vazio.

Finalmente, quando cheguei á estação, retirei as malas e, sem deixar que falasse, abracei-o profundamente e saí a correr até ao comboio.
Entrei, sentei-me e deixei que a dor se apoderasse de mim. Tinha a perfeita noção de que esta era a única forma de ser feliz – recomeçar uma vida longe do passado, aquele que tanto me atormenta e me magoa.

Descansa.

Convencida pelo cansaço, alimentei a ideia de que era melhor recomeçar a história perdida. A história de uma criança feliz com a infância perdida e atormentada pela verdade, de uma mulher que não tinha lugar num mundo onde não pertencia e de um ser sem destino que caminhava para longe de tudo.

De tudo?

Os meus olhos fecharam-se automaticamente e a minha memória parou no tempo. Cada vez que tentava recorrer ao passado havia uma parede negra e forte que me impedia de fazê-lo. Não lutei para derruba-la. Haveria de existir um lugar para mim onde quer que fosse, longe daqui.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Amar em tempo de Guerra

O inevitável e derradeiro dia tinha chegado. A mala estava já preparada e carregada. Enquanto se despedia da casa eu fiquei encostada ao balcão da cozinha com a tigela do leite encostada aos lábios, a tentar afogar a dor sufocante que sentia no peito e que aumentava á medida que os ponteiros circulavam em volta do relógio da sala. Aquele “tic-tac” aniquilava qualquer tentativa da minha parte para esquecer, por um segundo que fosse, o que estava para acontecer.
Quando finalmente desceu as escadas, carregando o resto das malas, ele olhou-me e depois deslocou o olhar para o relógio que tinha no pulso, como se quisesse evitar pronunciar-se.
-Eu sei , está na hora. – as minhas palavras frias estavam a arder de dor.

Sem dizer uma única palavra, dirigiu-se para a porta de entrada e saiu deixando-a entreaberta. Rodei o corpo em direcção ao balcão, despejei o leite da caneca e pousei-a na banca. Apertei as extremidades do balcão com as mãos e trinquei os lábios para que as lágrimas não caíssem. A buzina do carro suou forte e percebi que não valia de nada estar ali a evitar o inevitável. Saltei para a entrada e saí vestindo o longo casaco que ele mesmo me oferecera pelo meu aniversário.

A viajem até à estação foi longa mas nem por isso dissemos o que quer que fosse um ao outro. Não havia palavras nem vozes dentro daquele carro, apenas o silêncio doloroso da ocasião inevitável. Enquanto percorríamos o aglomerado de vegetação eu lembrava-me dos passeios que fizéramos de bicicleta, das caminhadas ao fim do dia e dos piqueniques de manhãzinha.

Os meus pensamentos foram interrompidos por uma mão fria e áspera que tocou na minha pálida e frágil.

-Chegamos. Estás bem? – Era como se as palavras dele fossem pronunciadas sem qualquer intervenção de sentimentos.
Abri bruscamente a porta do carro e sai sem pronunciar uma única palavra.

                                                           *  *  *

Agora estávamos ali, ambos parados a olhar a listagem de comboios que se aproximavam da hora de partida. As minhas pernas começavam a tremer e a dor no peito parecia querer explodir com ele. Tentara controlar me o mais que pudera mas parecia ceder aos meus instintos. Pousei com leveza a mala que segurava e virei-me para ele, obrigando-o a olhar-me nos olhos. Respirei fundo e disse-lhe:
-Tu não me podes deixar outra vez, por favor.
-Eu vou, mas eu volto. –a mão dele pousou sobre o meu rosto e apanhou a lágrima que me caia pela face. As suas palavras saíram acompanhadas de um sorriso tão forçado e doente que parecia mais pálido do que nunca. Ele estava a sofrer.
-Até quando ? até quando vou ter de esperar por ti? –Entrelacei os braços em redor do seu corpo e o choro apoderou-se de mim. Tinha tanto medo de perde-lo. Até quando teria a certeza de que ele voltava? O meu guerreiro não podia lutar mais. Não podia perder a minha vida. Ele não respondeu à minha pergunta e deixou-me chorar. Embalou o meu corpo e o meu pranto até as lágrimas cederem e sumirem com o calor daquela manhã.
Depois de garantir que estava mais calma ele pegou a minha mão e, olhando-me de forma a parecer convincente, sussurrou-me:
-Eu prometi voltar sempre, prometi amar-te e estar ao teu lado até ao fim dos meus dias e é isso que vou fazer. –depois desceu a mão até ao meu ventre e continuou- ele vai cuidar de ti na minha ausência.

 Sim, o Nosso bebe cuidará de mim na sua ausência. Mas, quem cuidará de nós? Por muito que me custasse não podia deixá-lo partir com a imagem de uma grávida patética e frágil a choramingar. Forcei um sorriso rasgado e juntei a minha mão à dele apertando-a com todas as minhas forças.

-Vamos esperar por ti, o tempo que for preciso.-a minha voz cedia a cada palavra- eu sei que vais voltar meu amor, voltas sempre –Nunca mentira tão bem em toda a minha vida.

Os lábios dele vieram ao encontro dos meus e, num beijo suave mas eterno, seguido de um abraço apertado e saudoso, despedi-me do meu marido, futuro pai do meu filho e eterno amor mas guerreiro de uma causa tão nobre que só por isso valia a pena esperar meses pelo seu regresso.

O comboio partiu e o seu rosto sumiu, acenando com um sorriso falso e as lágrimas a caírem-lhe pelo rosto em diante. Sabia, tão bem quanto eu, que o seu regresso era incerto e que, mais tarde ou mais cedo, algo podia dar errado.

-O papá vai voltar não tarda nada meu amor. – falava com ele, com o “nosso bebé”.




Não tinha outra alternativa a não ser acreditar que, em pouco tempo, iria voltar a te-lo nos meus braços. Porque, inevitavelmente sofrida, a vida é feita de esperanças. O amor eterno é uma delas.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Perdida


"Sinto me tão perdida que parece que nunca me encontrei.

As palavras saem por instinto e os gestos são múltiplos e multiplicam-se na multiplicidade das páginas que preenchem o vazio de um livro - a minha memória.

É como se para trás tivessem ficado todos aqueles que amei. Aqueles que amo, mas que, estupidamente, não sei se serei capaz de amar eternamente. O amor próprio parece tão fraco que me sinto incapaz de amar o que quer que seja.

Caminho descalça sob uma estrada de neblina, onde as árvores flutuam e o sol está pendurado nas nuvens. É como se a minha vida fosse uma peça de teatro sem dramaturgo ou um romance sem romancista.
Sobre o ombro carrego uma mala de lembranças. E, embora incertas, fazem a mala pesada - tal como a minha alma de angústia. Contra o peito carrego a vida - Um livro pequeno mas imenso. Caminho sem pressa, como se caminhasse para a sepultura. Paro e escrevo, fecho e retomo o caminho.
Tudo o que tinha a fazer está feito, as páginas preenchidas e o coração partido.
Amei tudo o que tive, tive tudo o que não tive e não tive o que dei - amor. "
Ao fim de dois tempos as pernas cederam e o livro, que carregava ao peito, caiu seguido do corpo que, num suspiro, virou vulto.

"Ao fim ao cabo somos todos iguais,
Escravos da vida,
amantes desleais."