sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Memórias Soltas

"Quando acabei de fechar a última mala, bateram á porta.
-Acabei mesmo agora de fazer as malas! - exclamei com um sorriso falso -vamos?
-Tem a certeza de que é isto que quer ? sabe que...
-Chiuuu - sussurrei impedindo-o de continuar a falar.
Faltava pouco para o por do sol e tinha de apressar-me. Carregamos as centenas de malas vazias e, quando as lágrimas queriam denunciar-me, eu traí-as.
-Espere, eu esqueci me de algo lá em cima.
-Quer que...
-Não! Eu vou lá, já volto. -respondi subindo as escadas a correr.
Abri a porta, que afinal já estava aberta, escorreguei no tapete que não existia e levantei-me com a força do vento. Depois, corri em direcção ao quarto, aquele onde à anos que não conseguia entrar, abri a gaveta aberta e retirei a foto que já não la estava.
Não?
Pois não, a fotografia estava sob a cama mal feita, aquela onde brincava com a minha irmã mais nova.
Peguei a foto e desci sem nunca mais olhar para trás.
"É melhor assim" - pensei.
Antes que voltasse a bombardear-me de perguntas mandei-o calar-se e entrei no grande e velho carro que, um dia, pertenceu aos meus pais.
A viagem foi longa e demorada. Olhava a paisagem e fazia para não pensar em tudo o que deixava para trás. Há medida que o carro se afastava da casa era como se conseguisse sentir as migalhas a cair estrada fora. Como um rasto de tudo o que nunca passou de um vazio.
Finalmente, quando cheguei á estação, retirei a mala (pois não eram assim tantas) e, sem deixa-lo falar, abracei-o como se abraça o tempo e sai a correr calçada fora até ao comboio.
A pressa apanhou-me distraída e esbarrei-me contra algo.
-Desculpe ! -pedi enquanto apanhava as folhas da pessoa com quem me despistei.
Eram papeis, muitos papeis e uma fotografia antiga. Uma fotografia? Isso. Uma fotografia. Mas não era uma fotografia qualquer.
"é uma fotografia idêntica á que carrego no peito, uma..."
-Uma fotografia de família. -O rapaz terminou a frase do meu pensamento e limpou as lágrimas envergonhadas que lhe caiam sob o rosto. Trazia uma farda verde.
-É militar? .perguntei feita parva.
-Sobrevivente, apenas. e você? -perguntou sorrindo.
-Eu? Sou apenas uma órfão parva que, devido a uma conversa, está prestes a perder a viagem mais importante da sua vida.
-Não me diga que deixou uma casa antiga, uma casa de família, uma casa que lhe lembra, todos os dias, que ... lamento imenso. -enquanto falava olhava para o céu, era como se cuspisse as palavras, como se estivesse a ler nas nuvens.
-Como é que...
Mal começara a fazer a pergunta e já não havia ninguém por perto.
-Então menina? vai perder o comboio ! - resmungou uma velhota que me empurrava no meio da multidão.
Entrei. Sentei-me e adormeci.
Segui-a sem destino, sem vontade e sem esperança. De uma única coisa eu tinha a certeza.
Era órfão e acabara de amar um Homem em apenas 2 minutos. Um homem que nunca mais iria ver na vida. Que homem?
Talvez não tenha avido homem algum.
"Cala-te" - pensei.
"Enfim, continuei a dormir e, convencida pelo cançasso, alimentei a ideia de que era melhor recomeçar a história perdida.  A história de uma menina que nascera sem pais, de uma mulher que não tinha futuro e de um ser sem destino que caminhava para longe de tudo.

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"Tudo o que escrevo não está escrito em livro algum senão no meu, tudo o que sinto não é sentido por mais pessoa senão a minha. Um obrigado do fundo do coração a todos aqueles que fazem deste sonho uma realidade." Bianca D'Sousa