sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Sem rumo

Caminhamos de mãos dadas para um sitio sem morada. Prometemos unir as nossas vidas por uma só. Deixamos para trás um passado de derrotas e de mal entendidos.
Decidimos que juntos somos maiores e mais fortes do que o próprio destino. Não sabemos se o caminho é longo ou perigoso mas sabemos que não podemos desistir.
Levamos connosco poetas, pintores, artistas, pobres, ricos e doentes.
Até agora já foram os vários que desistiram, outros que perderam a vida a tentar. No entanto, demos a nossa palavra e só a vida vale mais do que isso.
-Falta muito mamã? -Exclamou a pequenina que varria as folhas do outono com o pequeno peluche enquanto caminhava de mão dada com a mãe.
A dona de casa baixou-se e, limpando o sorriso inocente do filho, sussurrou-lhe ao ouvido:
“Estás a ver aquela luz? ... quando ela descer até à colina, ali ao fundo, nós já teremos chegado .”

A criança não parou de sorrir e, mesmo sem perceber a explicação, continuou junto da mãe o caminho que, certamente, esta desejava fazer por ela.
Em poucos dias a esperança parecia ser a única fé e a angústia de um “caminho sem fim” tornava-se o pão de cada dia. As cabeças começaram a deixar de se erguer e os rostos, angustiados e apagados, começaram a apagar o horizonte que tinham desenhado.
“Cada vez somos menos.” – pensam uns.
“Nunca soubemos se isto ia dar certo” – pensam outros.
O que o Homem não sabe é que a vida é feita de incertezas e que , por mais forte e impotente que este pensa ser, mesmo unido, o Homem não pode lutar contra a sua própria natureza.

O homem forte não é aquele que se une para não cair, é aquele que se separa para evitar que os outros caíam com ele.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Memórias Soltas

"Quando acabei de fechar a última mala, bateram á porta.
-Acabei mesmo agora de fazer as malas! - exclamei com um sorriso falso -vamos?
-Tem a certeza de que é isto que quer ? sabe que...
-Chiuuu - sussurrei impedindo-o de continuar a falar.
Faltava pouco para o por do sol e tinha de apressar-me. Carregamos as centenas de malas vazias e, quando as lágrimas queriam denunciar-me, eu traí-as.
-Espere, eu esqueci me de algo lá em cima.
-Quer que...
-Não! Eu vou lá, já volto. -respondi subindo as escadas a correr.
Abri a porta, que afinal já estava aberta, escorreguei no tapete que não existia e levantei-me com a força do vento. Depois, corri em direcção ao quarto, aquele onde à anos que não conseguia entrar, abri a gaveta aberta e retirei a foto que já não la estava.
Não?
Pois não, a fotografia estava sob a cama mal feita, aquela onde brincava com a minha irmã mais nova.
Peguei a foto e desci sem nunca mais olhar para trás.
"É melhor assim" - pensei.
Antes que voltasse a bombardear-me de perguntas mandei-o calar-se e entrei no grande e velho carro que, um dia, pertenceu aos meus pais.
A viagem foi longa e demorada. Olhava a paisagem e fazia para não pensar em tudo o que deixava para trás. Há medida que o carro se afastava da casa era como se conseguisse sentir as migalhas a cair estrada fora. Como um rasto de tudo o que nunca passou de um vazio.
Finalmente, quando cheguei á estação, retirei a mala (pois não eram assim tantas) e, sem deixa-lo falar, abracei-o como se abraça o tempo e sai a correr calçada fora até ao comboio.
A pressa apanhou-me distraída e esbarrei-me contra algo.
-Desculpe ! -pedi enquanto apanhava as folhas da pessoa com quem me despistei.
Eram papeis, muitos papeis e uma fotografia antiga. Uma fotografia? Isso. Uma fotografia. Mas não era uma fotografia qualquer.
"é uma fotografia idêntica á que carrego no peito, uma..."
-Uma fotografia de família. -O rapaz terminou a frase do meu pensamento e limpou as lágrimas envergonhadas que lhe caiam sob o rosto. Trazia uma farda verde.
-É militar? .perguntei feita parva.
-Sobrevivente, apenas. e você? -perguntou sorrindo.
-Eu? Sou apenas uma órfão parva que, devido a uma conversa, está prestes a perder a viagem mais importante da sua vida.
-Não me diga que deixou uma casa antiga, uma casa de família, uma casa que lhe lembra, todos os dias, que ... lamento imenso. -enquanto falava olhava para o céu, era como se cuspisse as palavras, como se estivesse a ler nas nuvens.
-Como é que...
Mal começara a fazer a pergunta e já não havia ninguém por perto.
-Então menina? vai perder o comboio ! - resmungou uma velhota que me empurrava no meio da multidão.
Entrei. Sentei-me e adormeci.
Segui-a sem destino, sem vontade e sem esperança. De uma única coisa eu tinha a certeza.
Era órfão e acabara de amar um Homem em apenas 2 minutos. Um homem que nunca mais iria ver na vida. Que homem?
Talvez não tenha avido homem algum.
"Cala-te" - pensei.
"Enfim, continuei a dormir e, convencida pelo cançasso, alimentei a ideia de que era melhor recomeçar a história perdida.  A história de uma menina que nascera sem pais, de uma mulher que não tinha futuro e de um ser sem destino que caminhava para longe de tudo.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Adeus

(Procurei na gaveta uma folha velha, cuspi na pena e mergulhei-a na tinta. Chorei tudo e comecei a escrever)

Quando o despertador tocou a janela abriu-se e o sol não estava no céu. O dia estava chuvoso, apagado ... diria triste. Levantei o sobrolho e espreitei - ao fundo do quarto estava o teu retrato, sujo, abandonado mas lindo como sempre.
Levantei-me e abri as restantes janelas do velho quarto.
(Respira)
Fazia tempo que não vinha a esta casa. Desde que nos separamos que, cada vez que batia á porta, era como se não houvesse ninguém para além dela. As janelas não se abriam, não havia vestígios de qualquer movimento nem sequer da tua presença. Nunca mais me aceitas-te no teu "mundo", deixaste-me tão sozinha que a solidão foi a tua única companhia desde que o fizes-te.
(Não guardo rancor)
Abri as portas do armário enferrujado e retirei um casaco preto, aquele que te ofereci em Paris. (Lembras-te?)
Despi o que trazia na noite passada e vesti-o. Continuava suave e quente.

Depois, procurei a tua gravata favorita - vermelha.
Sei que não era apropriada para a ocasião mas sempre me pediras que a usasse e nunca fi-lo.
(Eras um idiota )
Por fim, retirei do guarda jóias o relógio de bolso que trouxeste de Londres.
"Estou pronta" - pensei.
Percorri a pé o caminho que, todos os dias, tu fazias para visitar os teus pais.
O cheiro a terra molhada faz-me lembrar os nossos piqueniques até ao por do sol, e não só.

Roubei uma Rosa do teu jardim e carrego-a no peito até à tua nova casa.
(O cemitério está repleto)
Estão aqui todos os teus amigos, a tua família e até o Henrique - o teu cão.
Tal como tu, não gosto de cerimónias e acabei por ficar com ele junto á sepultura.
(Como sempre, eu espero)
Aí vens, sob a forma daquilo que nunca foste. Hoje, todos te amam, todos te querem e todos perdoam o mal que fizes-te, pois, (incluindo eu) todos querem que descanses em paz.
(Não vou chorar)
Amanhã, todos vão visitar-te e colocar flores na tua sepultura. Mas e depois?
depois vais ser como todos os "heróis" esquecidos entre as lembranças e a novidade do mundo contemporâneo.
(Pára)
Espero que leves contigo essa rosa como prova de tudo o que, um dia, significamos um para o outro
Acredito que, quando regressar, irás abrir-me a porta e dar-me o abraço que ficas-te a dever.

(Consciente dos meus actos mas atropelada pela memória dos teus, rasguei a carta e parti o relógio de bolso contra o peito)