quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Desejada

Queria encontrar as palavras certas com que podesse descrever tudo o que estou a sentir neste preciso momento. Contudo, não encontro. Estas parecem gastas, desbotadas pelas lágrimas de alguém que caminha sem rumo com metade de um mapa antigo.
Para trás fica tudo o que nunca de mim fez parte. Comigo vai tudo aquilo que nunca fui e um pouco daquilo que ainda sou.

Trago comigo a recordação emotiva do momento mais feliz da minha vida:
"O dia estava chuvoso mas nem por isso cancelamos a tarde que combináramos já há bastante tempo. Esperei no sitio habitual - o do primeiro encontro.
O seu sorriso brilhava ao longe como o de uma criança a aproximar se de uma montra repleta de brinquedos. No entanto, há medida que se aproximava era como se se apercebesse de que a montra estava vazia - o olhar ficara vazio, até triste.
-O que foi? -a minha voz saiu rouca. Talvez temia pela resposta.
-Temos de conversar ... -o seu olhar desceu até aos meus pés enquanto as suas mãos caiam  sobre o corpo, derrotadas .
-Aconteceu alguma coisa? -perguntei perplexa e, simultâneamente, surpresa .
-Não. -fez-se uma breve pausa até retomar o discurso- mas está para acontecer.
Foi então que o sorriso voltou a brilhar e os braços dele rodearam-me com uma força explosiva. Antes de conseguir reagir os seus lábios esbarraram contra os meus. Quando, finalmente, ficamos sem ar nos pulmões, ele afastou o rosto do meu e olhou-me.
-Porque.. -as minhas palavras foram interrompidas novamente.
Cobriu-me a boca com uma das suas mãos e com a outra fez o sinal para que eu não falasse. Fiz o que ele pediu.
A sua mão deslizou pelo meu pescoço e fez o percurso das extremidades do meu rosto, como se me estivesse a medir a beleza. De seguida afastou-se de mim e levou um dos joelhos ao chão molhado.
-Não, olha .. -Queria dizer-lhe que se iria molhar mas o olhar sério daquele homem fez com que me calasse.
Um breve instante foi preenchido pelo silencio da chuva a cair e, enquanto eu ficava imóvel ele retirou do bolso uma caixinha minúscula e ergueu-a na minha direcção.
Não posso acreditar.
O meu coração disparou do peito e o ar faltou-me.
-Queres casar comigo ? -perguntou subtilmente enquanto o seu olhar brilhava muito mais do que qualquer outra coisa.
Não tive como reagir de outra forma - lancei me contra o seu corpo envolvendo-o com os braços e beijei-o com todas a minhas forças. Uma onde de alegria cobriu tudo em meu redor e deixei de sentir os pés no chão. Ficamos ali, abraçados e envolvidos pelos beijos de um amor que, aparentemente, tinha tudo para ser eterno."

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Escolha

"Depois de passar-me a mala para as mãos, despediu-se rapidamente com um beijo no rosto e empurrou-me para a direcção do comboio. Era como se estivesse a fazer com que tudo fosse dolorosamente mais rápido. A decisão tinha sido tomada pelos dois. Não sabíamos ao certo se seria o melhor para ambos mas sabíamos que esta era a única forma de saber - tentar.
Depois de entrar, deixei-me ficar junto á porta. A mesma fechou-se e eu fiquei a olhar o rosto envergonhado do homem que deixava para trás. Várias imagens passaram pela minha cabeça: o primeiro beijo, a primeira noite, o primeiro ano, o primeiro pesadelo, a primeira ausência (...)
Limpei as lágrimas com raiva da minha própria vergonha e virei o rosto com medo de obrigar alguém a parar o comboio.
Só mais tarde percebi que nunca deveria ter partido para onde quer que fosse. ♥ "

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Desapontada

Sem você eu não consigo respirar.
Só mais quatro longos dias.  O dia já se foi e a lua reinará em breve. Mais um dia terminou e tu não voltas-te. A campainha não tocou, a porta não se abriu, a carruagem não se ouviu ao fundo da rua e o meu coração faz tempo que parece ter parado com medo de partir. Enquanto oiço o meu pai tocar no piano a música mais triste do mundo, lá fora a chuva começa a cair com leveza. E, á medida que a música se aproxima do refrão a chuva fica mais intensa. Como se se tratasse de um contraste sem nexo. O olhar do meu pai parece cada vez mais apagado, tal como o meu. É como se a morte da minha mãe o fizesse compreender perfeitamente a dor que sinto. Quando a pessoa que amamos nos deixa, da forma que for, o mundo parece não fazer mais sentido. É como se o futuro já não fosse prestar e é como se o passado fosse a única coisa boa para o resto das nossas vidas.  Ao longo destes anos o meu pai sempre lidou com a doença da minha mãe como se fosse uma mensagem de Deus. A doença fé-los viver o amor com mais intensidade, passaram a aproveitar cada segundo. No entanto, embora o meu pai sempre tivesse demonstrado conformismo, por de trás da compaixão surgiu nele um lado mais frio. É como se, á medida que o tempo passa ele fique cada vez mais distante da realidade. Como se tivesse nas mãos uma bomba que, minuto a minuto, se aproxime da explosão. Agora que tudo terminou o meu pai não vive mais. É como se grande parte dele tivesse ido junto com a minha mãe e o pouco que ficou não fizesse diferença alguma. Acredito que o amor é para sempre. No entanto, acredito que ele é demasiado forte para terminar como terminou o nosso. Se realmente partis-te é porque o nosso amor nunca chegará ao amor dos meus pais. Um amor eterno, capaz de superar a doença e a morte.
Beijei o rosto do meu pai, que nem se moveu, e subi até ao meu quarto enquanto o som do piano ficava para trás como promessa de um retorno.
Deixei a chuva percorrer o meu rosto e adormeci com uma nuvem de recordações insensatas e impuras de dois amantes que se perderam para sempre.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Adormecida

Eu guardo uma coisa dentro de mim. Na verdade, uma imagem. E hoje eu me pergunto se o motivo de seu ser assim, é culpa dessa imagem.
Esta noite adormeci com uma missão - sentir.
Antes de deitar despi-me e libertei a alma. Abri a janela e deixei-a ir. Foi demasiado fácil desligar-me das emoções.
A partir desse momento foi como se falta-se qualquer coisa. "Qualquer coisa" que não é importante agora.
Afastei as cortinas, subi as persianas, abri as janelas e deslizei até á varanda.
A lua ilumina os longos hectares de terra e vegetação. As estrelas estão de tal forma embutidas no céu que é como se nele estivessem penduradas.
Nunca, em toda a minha vida, me apercebera de como a noite é eterna.
Virei-me para o interior do quarto. Sob a cama tinha a caixa. A caixa de tudo o que um dia fui. São recordações?
Não . São águas passadas que as cheias levarão.
Como já disse, a noite está linda e não sinto outra coisa.
A minha missão é fazer de mim aquilo que devo ser - Sem passado, sem sofrimento e sem identidade.
Identidade? que percebo eu sobre isso.
Bem, no fim de contas estou a fazer o que, todas as noites, meio mundo tenta fazer enquanto a outra metade deixa para a noite seguinte.
O que no fundo nos falta é uma missão. Algo que faça com que sejamos autênticos. Sim, autênticos.
Sem segundas preocupações, sem aparentes "ses", sem uma identidade definida como "robotts".

Aposto que, a partir desta noite, a lua nunca mais parecerá redonda.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Sem rumo

Caminhamos de mãos dadas para um sitio sem morada. Prometemos unir as nossas vidas por uma só. Deixamos para trás um passado de derrotas e de mal entendidos.
Decidimos que juntos somos maiores e mais fortes do que o próprio destino. Não sabemos se o caminho é longo ou perigoso mas sabemos que não podemos desistir.
Levamos connosco poetas, pintores, artistas, pobres, ricos e doentes.
Até agora já foram os vários que desistiram, outros que perderam a vida a tentar. No entanto, demos a nossa palavra e só a vida vale mais do que isso.
-Falta muito mamã? -Exclamou a pequenina que varria as folhas do outono com o pequeno peluche enquanto caminhava de mão dada com a mãe.
A dona de casa baixou-se e, limpando o sorriso inocente do filho, sussurrou-lhe ao ouvido:
“Estás a ver aquela luz? ... quando ela descer até à colina, ali ao fundo, nós já teremos chegado .”

A criança não parou de sorrir e, mesmo sem perceber a explicação, continuou junto da mãe o caminho que, certamente, esta desejava fazer por ela.
Em poucos dias a esperança parecia ser a única fé e a angústia de um “caminho sem fim” tornava-se o pão de cada dia. As cabeças começaram a deixar de se erguer e os rostos, angustiados e apagados, começaram a apagar o horizonte que tinham desenhado.
“Cada vez somos menos.” – pensam uns.
“Nunca soubemos se isto ia dar certo” – pensam outros.
O que o Homem não sabe é que a vida é feita de incertezas e que , por mais forte e impotente que este pensa ser, mesmo unido, o Homem não pode lutar contra a sua própria natureza.

O homem forte não é aquele que se une para não cair, é aquele que se separa para evitar que os outros caíam com ele.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Memórias Soltas

"Quando acabei de fechar a última mala, bateram á porta.
-Acabei mesmo agora de fazer as malas! - exclamei com um sorriso falso -vamos?
-Tem a certeza de que é isto que quer ? sabe que...
-Chiuuu - sussurrei impedindo-o de continuar a falar.
Faltava pouco para o por do sol e tinha de apressar-me. Carregamos as centenas de malas vazias e, quando as lágrimas queriam denunciar-me, eu traí-as.
-Espere, eu esqueci me de algo lá em cima.
-Quer que...
-Não! Eu vou lá, já volto. -respondi subindo as escadas a correr.
Abri a porta, que afinal já estava aberta, escorreguei no tapete que não existia e levantei-me com a força do vento. Depois, corri em direcção ao quarto, aquele onde à anos que não conseguia entrar, abri a gaveta aberta e retirei a foto que já não la estava.
Não?
Pois não, a fotografia estava sob a cama mal feita, aquela onde brincava com a minha irmã mais nova.
Peguei a foto e desci sem nunca mais olhar para trás.
"É melhor assim" - pensei.
Antes que voltasse a bombardear-me de perguntas mandei-o calar-se e entrei no grande e velho carro que, um dia, pertenceu aos meus pais.
A viagem foi longa e demorada. Olhava a paisagem e fazia para não pensar em tudo o que deixava para trás. Há medida que o carro se afastava da casa era como se conseguisse sentir as migalhas a cair estrada fora. Como um rasto de tudo o que nunca passou de um vazio.
Finalmente, quando cheguei á estação, retirei a mala (pois não eram assim tantas) e, sem deixa-lo falar, abracei-o como se abraça o tempo e sai a correr calçada fora até ao comboio.
A pressa apanhou-me distraída e esbarrei-me contra algo.
-Desculpe ! -pedi enquanto apanhava as folhas da pessoa com quem me despistei.
Eram papeis, muitos papeis e uma fotografia antiga. Uma fotografia? Isso. Uma fotografia. Mas não era uma fotografia qualquer.
"é uma fotografia idêntica á que carrego no peito, uma..."
-Uma fotografia de família. -O rapaz terminou a frase do meu pensamento e limpou as lágrimas envergonhadas que lhe caiam sob o rosto. Trazia uma farda verde.
-É militar? .perguntei feita parva.
-Sobrevivente, apenas. e você? -perguntou sorrindo.
-Eu? Sou apenas uma órfão parva que, devido a uma conversa, está prestes a perder a viagem mais importante da sua vida.
-Não me diga que deixou uma casa antiga, uma casa de família, uma casa que lhe lembra, todos os dias, que ... lamento imenso. -enquanto falava olhava para o céu, era como se cuspisse as palavras, como se estivesse a ler nas nuvens.
-Como é que...
Mal começara a fazer a pergunta e já não havia ninguém por perto.
-Então menina? vai perder o comboio ! - resmungou uma velhota que me empurrava no meio da multidão.
Entrei. Sentei-me e adormeci.
Segui-a sem destino, sem vontade e sem esperança. De uma única coisa eu tinha a certeza.
Era órfão e acabara de amar um Homem em apenas 2 minutos. Um homem que nunca mais iria ver na vida. Que homem?
Talvez não tenha avido homem algum.
"Cala-te" - pensei.
"Enfim, continuei a dormir e, convencida pelo cançasso, alimentei a ideia de que era melhor recomeçar a história perdida.  A história de uma menina que nascera sem pais, de uma mulher que não tinha futuro e de um ser sem destino que caminhava para longe de tudo.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Adeus

(Procurei na gaveta uma folha velha, cuspi na pena e mergulhei-a na tinta. Chorei tudo e comecei a escrever)

Quando o despertador tocou a janela abriu-se e o sol não estava no céu. O dia estava chuvoso, apagado ... diria triste. Levantei o sobrolho e espreitei - ao fundo do quarto estava o teu retrato, sujo, abandonado mas lindo como sempre.
Levantei-me e abri as restantes janelas do velho quarto.
(Respira)
Fazia tempo que não vinha a esta casa. Desde que nos separamos que, cada vez que batia á porta, era como se não houvesse ninguém para além dela. As janelas não se abriam, não havia vestígios de qualquer movimento nem sequer da tua presença. Nunca mais me aceitas-te no teu "mundo", deixaste-me tão sozinha que a solidão foi a tua única companhia desde que o fizes-te.
(Não guardo rancor)
Abri as portas do armário enferrujado e retirei um casaco preto, aquele que te ofereci em Paris. (Lembras-te?)
Despi o que trazia na noite passada e vesti-o. Continuava suave e quente.

Depois, procurei a tua gravata favorita - vermelha.
Sei que não era apropriada para a ocasião mas sempre me pediras que a usasse e nunca fi-lo.
(Eras um idiota )
Por fim, retirei do guarda jóias o relógio de bolso que trouxeste de Londres.
"Estou pronta" - pensei.
Percorri a pé o caminho que, todos os dias, tu fazias para visitar os teus pais.
O cheiro a terra molhada faz-me lembrar os nossos piqueniques até ao por do sol, e não só.

Roubei uma Rosa do teu jardim e carrego-a no peito até à tua nova casa.
(O cemitério está repleto)
Estão aqui todos os teus amigos, a tua família e até o Henrique - o teu cão.
Tal como tu, não gosto de cerimónias e acabei por ficar com ele junto á sepultura.
(Como sempre, eu espero)
Aí vens, sob a forma daquilo que nunca foste. Hoje, todos te amam, todos te querem e todos perdoam o mal que fizes-te, pois, (incluindo eu) todos querem que descanses em paz.
(Não vou chorar)
Amanhã, todos vão visitar-te e colocar flores na tua sepultura. Mas e depois?
depois vais ser como todos os "heróis" esquecidos entre as lembranças e a novidade do mundo contemporâneo.
(Pára)
Espero que leves contigo essa rosa como prova de tudo o que, um dia, significamos um para o outro
Acredito que, quando regressar, irás abrir-me a porta e dar-me o abraço que ficas-te a dever.

(Consciente dos meus actos mas atropelada pela memória dos teus, rasguei a carta e parti o relógio de bolso contra o peito)

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Angustiada

Um dia já quis ser princesa do reino dos outros, amante do coração mais nobre e detentora da maior felicidade possível. Porém, com o tempo, fui-me apercebendo que a vida não é como nos livros que lia antes de adormecer.
As histórias são diferentes da História. O ser humano sonha, o ser humano cria e o ser humano constroi mas, por trás de toda a novidade, existe nele um lado mais puro e simultâneamente egoísta - A recordação de um tempo perdido. Aquela que magoou tantos poetas, aquela que inconscientemente é vista como o tempo de "ouro". É lá que moram as princesas e os Príncipes e todas as alegrias de um tempo sem fim.
No fundo, se o Homem soubesse, desde logo, o sofrimento pelo qual terá de passar depois da inconsciência infantil, aposto o meu coração como, covarde como é, preferia não nascer .

Tudo o que somos não passa daquilo que tentamos ser e, muitas das vezes, morremos sem tentar ou perdemos a cabeça a conseguir.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Memórias de uma Dama

De acordo com tudo o que ficou para trás, a vida seguirá piorando.
Os dias parecem encolher e as noites somente trazem à tona as memórias que, cobertas de mágoa, corrompem a postura de uma dama.
Lembro-me, com perfeita clareza, dos passeios de bicicleta pelos terrenos despovoados. Hoje, em lugar dos mesmos impõem-se, cada vez mais, as grandes infira-estruturas. A meu parecer, o mundo está perdido.
O homem contribui diariamente para a sua auto-destruição. Faz tempo que não sinto o verdadeiro perfume das flores caseiras que, um dia, fizeram parte da vivenda (numa jarra ao pé da lareira).
O que de pior se trata são os valores. A dignidade atingiu uma nova definição - impura e incorrecta. (Mas aceite pela maioria) .
Não há muito para dizer, (corrijo) não há muito que deva ser dito.
*A Ignorância faz do ser humano alguém mais digno de viver. Tal como uma criança.
A criança que um dia eu fui. A criança que já morreu.



 
P.S. Deixo tudo o que herdei ao vento.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Sentido



E o que me resta, é ir embora, ir embora.

Há momentos na nossa vida em que tudo parece vulgar e inutilmente perdido.
Há lugares pelos quais já passamos que transmitem-nos a sensação de que somos os primeiros e os últimos a lá passar. Há palavras e expressões que ficam-nos no ouvido, como ensinamentos .
Há musicas que lembram-nos pessoas que já nos deixaram faz tempo, as quais não conseguimos esquecer.
Há sentimentos que acompanham-nos a vida toda e outros que surpreendem-nos ao longo da mesma.
De todas estas "coisas" há uma que completa e une o Homem de forma a que este não perca (nunca) nenhuma das suas virtudes - a memória.
É nela que habitam todos os momentos, permanecem todos os lugares, estão escritas todas as palavras, cantadas todas as músicas e guardados todos os sentimentos.
É a memória que uniformiza tudo o que não parece ter forma, é ela que faz do mais simples e vulgar a mais bela e preciosa das recordações.
Tudo o que vivemos é como o por do sol - se não houver quem o deseje na manhã seguinte, a noite reinará para a eternidade.
É a vontade que guia tudo o que realmente somos e vivemos.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Para todos aqueles que amam

Sabe aquele casal perfeito? Um dia eles vão se separar. Sabe aquele casal impossível? Um dia eles vão se amar ao extremo. Porque? Simples, essa é a lógica do amor. Confundir sua cabeça.As noites passam tão devagar quando estás longe - o relógio parece parado, o meu coração atarantado e os meus passos parecem cada vez mais incertos.
Cada vez que oiço alguém a subir as escadas, as minhas pernas ficam tremules, o chão parece parado e o meu coração acelera, incerto de todas as certezas - o teu regresso.
Please just say you’ll come back…
São horas e horas de sofrimento, de dor, de desengano. Horas perdidas sem tempo para pensar na pessoa que espera, mas sim na pessoa por quem espero. Cada dia que passa, as olheiras aumentam, o coração fica mais fraco e a alma mais vazia. O que desejo é perder a esperança - sentimento maldito e traiçoeiro que nos leva a trocar a vida por um momento de desengano.
Quero acreditar que tudo isto vai terminar, que as paredes do quarto vão mover-se com os nossos sorrisos, que os lençóis vão voltar a dançar ao ritmo do nosso suor (...)
Contudo, o tempo é escasso para tudo o que necessito. As noites estão mais escuras do que um dia já foram, tal como os lábios mais secos que a própria água.
Estas palavras incertas e amadas que citei, são para o amor que perdi, a vida que escolhi, o destino que não tracei e o caminho que, cobardemente, recusei seguir.

Para todos aqueles que amam - o amor doí, a dor sofre e só sofre quem verdadeiramente ama.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O papel da Memória

Quando eu digo que deixei de te amarÉ por que te amoQuando eu digo que não quero mais você,É por que te queroEu tenho medo de te dar meu coraçãoE de confessar que estou nas tuas mãosMas não posso imaginar o que vai ser de mimSe eu te perder um diaEu me afasto e me defendo de você, mas depois me entregoFaço tipo, falo coisas que eu não sou,Mas depois eu negoMas a verdade é que eu sou louco por vocêE tenho medo de pensar em te perderEu preciso aceitar que não dá mais para separar as nossas vidasE nessa loucura de dizer que não te queroVou negando as aparências, disfarçando as evidênciasMas para que viver fingindoSe eu não posso enganar meu coraçãoEu sei que te amo, chega de mentirasDe negar meu desejoEu te quero mais do que tudo, eu preciso do teus beijosEu entrego a minha vida para você fazer o que quiser de mimSó quero ouvir você dizer que simDiz que é verdade, que tem saudadeQue ainda você pensa muito em mimDiz que é verdade, que tem saudade,Que ainda você quer viver pra mimAssim, o coração é uma "máquina" que a razão trai e a alma corrompe até que a memória compõe a ferida e faz a máquina recuperar a obra perdida - uma vida de felicidades e desengano.

Guardo no peito tudo aquilo que tem e nunca teve sentido - as palavras falhadas, os actos perdidos, os planos quebrados, os copos partidos, as noites sozinha, as manhãs perdidas (enfim) .
O coração suporta tudo aquilo que a razão rejeita.É ele que nos permite sofrer, lutar, falhar e voltar a sofrer. É ele que nos faz querer continuar a lutar, mesmo sabendo que, o mais provável, é voltar a falhar.
Por sua vez, na alma habita tudo aquilo que um dia teve existência - os sorrisos infantis, as gargalhadas da melhor amiga, os suspiros do infante, as lágrimas das noites perdidas (...) uma tralha de coisas que nos marcaram mas que, por vezes, nos passam ao lado até que, mais tarde, as vamos buscar e atribuir-lhes o devido significado.
O coração, a razão e a alma caminham de mãos dadas com a memória. É nela que tudo isto se conjuga e é graças a ela que o caminho perdido é retomado. É a memória que dá sentido e continuidade a tudo o que construimos, a tudo o que sonhamos e lutamos para obter.

domingo, 26 de junho de 2011

Materialismo

Num mundo onde, cada vez mais, a soberania de uns é a tirania de outros, a riqueza material de uns dá lugar á pobreza espiritual de outros e o verdadeiro "Homem" mata-se todos os dias.
A vida é efémera porque o materialismo assumiu tal posição na vida do ser humano que o coração é reduzido à "tal máquina" que bate sem parar e que, quando para, é para sempre. O mundo industrializado apoderou-se dos poetas, a era da "futilidade" permanece e parece que nada voltará a ser como antes.

Alguma vez paras-te para ouvir o cantar dos pássaros? Um dia, quando somente restar o olhar de uma criança, o choro de uma mãe perdida, a dor de um soldado maneta ... quando a humanidade "em cuecas" ficar sem elas, tenho a certeza, que vais desejar ouvir os pássaros que nunca deste a devida atenção.
O homem não para, não pensa, e quando o faz é porque o dinheiro não chega ou porque falta um tijolo para a construção . O que ele não vê é que o metafisico comanda a vida e que, no seu caso, o comando partiu-se desde o momento em que este trocou a fralda pelas calças de marca.

Assim foi, assim é, e se continuar, não será por muito tempo - porque a vida acaba quando quiser.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Porque há lugares no mundo que se parecem connosco.

Faz muito tempo que questiono o motivo pelo qual permaneço presa ao passado. A tudo aquilo que, anteriormente, maguou mas que desejo para a posterioridade. De todas as vezes que me questionei não encontrei resposta. É como se tudo estivesse vivo e de tal forma presente na minha memória que parece repetir-se constantemente.
 " Hás vezes sinto que, rodeada de afectos, percorri um caminho até uma caverna desastrosa e, durante esse caminho, fui deixando o rasto de um passado perfeito. No entanto, quando quis regressar ao presente, não recuperei o rasto.
Permaneço na caverna, rodeada de pessoas que não existem, de folhas soltas, de palavras sem nexo e frases mal articuladas.
Há uma facto que me deixa intrigada - a intensa sensação de que pertenci sempre a este lugar.
É como se este lugar fosse eu mesma, como se nunca tivesse conhecido lugar no mundo diferente deste. É como se as sombras fossem pessoas de carne e osso, como se as folhas soltas fossem abraços, como se as palavras fizessem sentido e como se as frases, sem nexo, fossem as leis desta terra abatida onde eu anseio permanecer para a eternidade.
Porque há lugares no mundo que se parecem connosco.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Aquilo que nunca fui

Caminhamos sob palavras incertas à procura de frases perfeitas e, na ignorância da sabedoria, tornamo-nos poetas, cantores do fado daqueles que não possuem memória. Falhamos todos os dias, caímos todas as noites e, no entanto, somos erguidos pela glória de um passado hegemónico. Em cada novo amanhecer, erguemos lembranças, pintamos retratos e declamamos as tristezas de uma vida quase perfeita.
É na convivência com os outros que nos apercebemos de que o mal que possuímos é desejado  pl'aqueles q'em pior situação se encontram - é nessa convivência que crescemos, mingamos e voltamos a crescer.
O que seríamos nós sem as memórias de tudo o que já fomos? E, se ainda assim somos crianças eternas e ignurantes para sempre, o que seria de cada um sem a presente lembrança de tudo o que somos, representamos e constituímos para os outros?
Há que pensar que, embora nos idealizamos de uma determinada forma, nem sempre somos aquilo que realmente desejamos.Porém, quando estamos prestes e fechar eternamente os olhos, olhamos para trás e vemos que tudo o que construímos faz sentido e que, afinal, somos e seremos importantes para a vida de alguém.
Conclusão: A memória, ainda que insensata, torna-nos eternamente gratos por tudo aquilo que nunca conseguimos ser.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Passado, presente e futuro.

O futuro é um tempo sem tempo determinado.
Sabemos que é o amanhã que ainda não chegou e que certamente chegará mas que, mais tarde ou mais cedo, deixará de existir para alguém.
 É então que o passado vem à baila e o futuro parece não ser necessário para a felicidade de outrem.
É no futuro que moram as eternas promessas de amor, onde reside a esperança de tudo o que não está bem e onde permanece o fado de todos aqueles que respiram.
É no passado que mora o ontem, onde reside a saudade de tudo o que foi maravilhoso e digno de recordação, e onde permanece o vestígio do fado que não passou.

O futuro é a incógnita,o passado é a história onde na memoria reside a permanência de um tempo que já passou.
E o Presente?
O presente é o futuro do passado.
É tudo aquilo que vivo hoje.
O presente é tão efemero que tudo o que escrevi já é tempo passado.

sábado, 9 de abril de 2011

Efemeridade

Os dias são diferentes aos que nunca vivi;
As manhãs são como as noites sem luar e as praias vazias de gente;
A Rua sem esquina parece igual a todos os dias;
A temporalidade das coisas parece escassa;
A efemeridade da vida é mais acentuada;
A minha alma está perto do abismo;
(Chegou a hora de entrares em cena)
Cerra-me a boca!
Aperta-me contra o teu peito!
Não me deixes mais.
Vai, não vás. Vai, não vás.
Espera...
 Ouves?

Estas palavras (...) são banais, tão simples de ler que parecem música. No entanto, a forma como as utilizamos fazem das mesmas a mais perfeita melodia, a verdade do real, a pureza do perfeito.
Eu sei que esta noite não estás aqui, sei que não vais estar amanhã e nunca saberei se estarás um dia, não sei mesmo se algum dia estives-te mas ... de uma coisa eu tenho a certeza, eu já desejei uma dessas noites mais do que a vida.
O relógio da sala parou e o despertador tocou -é hora de levantar, mais um dia me espera.
 (Como vez não tive tempo sequer de adormecer) .

sábado, 19 de março de 2011

Um princípio desejado e um fim insensato

Era o vigésimo quinto dia de todos os outros, antes do depois e depois do que ainda não acontecera. O tempo fazia-me acreditar que o sol não vinha mas que a chuva era insensata para um dia-a-dia normal.
Depois de comprar o jornal, como sempre fazia, dirigi-me á calçada e percorri-a sem piedade.
Tinha vontade de percorrer tudo o quanto antes, tinha um sentimento que me era desconhecido mas que queria conhecer.
 (Foi então que apareces-te)

Estacionei minimamente o meu olhar em ti e esperei que algo de vulgar e subtil acontecesse, um paradoxo entre o real e a imaginação.
Despojei toda a minha concentração no sal da água e deixei ondular-me pela mão do teu corpo.
Quando me envolves-te com os braços como fazias com um bebe eu senti realmente que já não me crias.
Beijaste-me a fronte e sais-te da praia a correr e a acenar com um sorriso verdadeiro mas sem vontade.
(Foi a última vez que me lembro de te ver).

" -Hoje já muito tempo se passou, no entanto, a memória não apaga o que o pensamento exclui, ou pelo menos tenta.
Só queria que soubesses, estejas onde estiveres, que deixei a cidade. Levo comigo uma mala vazia de palavras rasgadas pela rajada do sopro que não me deixas-te sentir.
Suporto no peito uma espécie de "time off". Desejo indesejar-te, Quero não querer-te e preciso de não precisar-te .
E ainda que me tenhas abandonado, não sei o que faria se aparecesses novamente.
E se me perguntasses se é porque te amo...
13 de Julho de 2026 ."

No fim coloquei-a no bolso e esperei que o comboio parti-se. Mesmo antes de fazê-lo o pânico instalou-se e tive (mesmo) de abandonar o comboio.
-Por favor parem isto!
Saí arrastada pela porta da carruagem e tropecei de tal forma que acabei por afagar tudo contra o tejadilho. A mala abriu-se, o vazio saiu e todas as cartas se espalharam pelo oculto.
-Já mo podes dizer...

Por momentos acreditei que te tinha ouvido.
(Quis morrer).

segunda-feira, 7 de março de 2011

(...) Time

Há muito tempo que não me sentia assim - com vontade de transmitir aos outros aquilo que nunca soube fazer. Quando me levantei para tomar o café percebi que o dia ainda não tinha nascido e que certamente estava a confundir o tempo.
Quando olhei o relógio e o ponteiro indicava as 03:00 h, certifiquei-me do quão errada (quanto ao tempo) estava.
Voltei para a cama arrastando o lençol, deitei-me e deixei que me embalassem.
 Esperei, voltei a esperar, virei o rosto e a almofada e esperei (tempo suficiente) para voltar a adormecer.
Foi então que percebi que já tinha esperado demais.
Projectei a almofada contra a cortina e levantei-me (rabujenta).
A campainha tocou de repente e eu senti-me aflita. Não sabia se estava a sonhar acordada, se o relógio estava certo, se eram horas de alguém tocar na campaínha ou se realmente algo de (muito) errado se estava a passar comigo.
Ainda que soubesse o perigo que poderia significar, dirigi-me à porta e abri-a:

Tinha o cheiro aniquilado do vento sufocado e uma mala no centro da escadaria - uma mala velha, magenta velho e que parecia realmente velha.
Arrastei-me até ela e puxei-a para dentro da porta (eu estava a entrar em parafuso).
Espreitei, na esperança de encontrar algo mais e, vagarosamente, bati a porta sonolenta.
Limpei o pó que a mala carregava e procurei onde abri-la. Então ... suspirei bem fundo e abri.

-Baby, wake up. it's time!

«O meu despertador tocou e eu acordei com a luz a bater-me no rosto e a cafeteira na cozinha a transbordar de café.
Desde então, todas as noites, a mala permanece há minha porta, por volta das 03:00 h. Sempre na ânsia de um encontro, de um eventual e absurdo encontro com a fantasia da minha realidade.»

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Fica comigo esta noite .

Acordei.
A manhã esta calma e triste, as ruas estão desertas . talvez porque é Domingo e eu tenho frio.
Esta noite Sonhei contigo .  Não imaginas a saudade que tenho e a dor que não sinto.

 (Quero contar-te um segredo, daqueles que não tenho mas que preciso contar. Para que fiques a saber que sou tua e tu és meu, e que antigamente já fomos amantes da mesma lua e perdedores da mesma batalha).

Os dias pertencem-te, as manhas querem-te e eu preciso de ti, muito mais do que queria.
Tenho as malas feitas, as roupas arrumadas ... tenho a memoria limpa como um software formatado á espera que faças clique na tecla "enter" e comeces a processar informação.
Concentro em mim todas as angustias do mundo, todas as tristezas dos tristes e lealdade dos nobres .
Não quero que me deixes, não quero que me mates, não quero que me ames mas também não quero que me odeies ... quero que (...) não quero . Vejo no espelho do quarto o reflexo de alguém que já não reconheço, alguém que de mim faz parte mas que não sou eu. Sinto a garganta seca de chorar.
Somente peço que me deixes voltar a sonhar contigo.
Mesmo antes da rajada de vento me acordar pediste que te fizesse uma promessa ...

(- promete que nunca me vais esquecer.)

Só quero que saibas que as promessas são como as perguntas, quando rétoricas só servem de acessório para o discurso palerma de quem não sabe o que dizer .
O dia ainda agora começou e eu já quero que ele termine , só para te encontrar de novo.
Só quero que percebas que, neste texto completamente sem nexo, vagueiam as lembranças de um tempo inalcançavelmente perdido.
M.A

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A chegar ao fim

O Dia está cinzento e chove. (Lá fora e dentro de mim)
Posso ver, através da janela, a chuva que caí, sentir o vento que sopra e cheirar o odor a terra molhada que me corrompe a memória e me faz voltar atrás no tempo:
(-Estava um dia que nem aqueles dias de chuva, mas éramos felizes ... lembras-te?
-Como me poderia esquecer...
-Preferia que te esquecesses do dia, da noite (...) mas que me quisesses como naquele dia .
-Eu ainda quero.
-Porque sabes que vou morrer.)
(O olhar dele caiu sobre o colo e não deu sinal de qualquer esperança)

||Voltando a mim.||
Consigo ouvir o som da cascata bem lá de longe! consegues ouvir?
E a brisa do mar para além das montanha? sentes? Aii como eu sinto tudo isto!
Eu sinto e choro, e esta dor infinita por si só vale a pena.
Sabes porquê?
Enquanto sentir dor é porque ainda te tenho, que não seja só em pensamento.

p.s. Sinto a garganta seca e um montão de gente a rodear-me. A saudade atropelou-me o pensamento e não quer sair de cima! Maldito o pão de cada dia!

sábado, 15 de janeiro de 2011

Em tempo de Guerra

Os meus olhos esvaem lágrimas de sangue, a minha alma depenada vagueia pela cidade perdida à procura de um abrigo.
Não sei como tudo aconteceu mas, se ainda ao menos tivesse memória.
Não me lembro como vim parar a este corpo (...) se sempre dele fiz parte.
"Vejo pessoas a dormir nas ruas, casas em remodelação, consigo ainda ver mais ! Meu Deus! Os céus estão cobertos de fumo."
Perdi a memória na calçada, o meu olhar é lúcido ... a minha nitidez é cega, traidora do meu próprio desejo.
Sinto saliva no peito e sangue na boca, ou não me sinto?


Quero voltar para casa mas perdi o caminho, ou será que ele não existe?

nem ontem, nem amanhã, hoje !

Eu não quero ser feliz com as recordações de um passado intermediario, não quero gozar das vibrações de um prospero futuro ... Eu quero caminhar no hoje, viver no hoje, permanecer e ficar no hoje que ainda não gozei a pensar no passado e no futuro, aqueles que me lavam a cara de água suja.
Normalmente é isto que acontece.
Vivemos o pouco que temos a pensar naquilo que nos farta, e o muito que não temos apaga com o pouco que temos (...) resumindo e concluindo, o que vivemos? praticamente nada.
Porque?
Porque o que temos para viver passamos a planear o que não podemos fazer, a sonhar com o que nunca vamos ter mas que (graças ao espírito pobre da esperança) cobiçamos, rugamos e pedimos .

E depois, quando o mal que vimos nos outros, atropela-nos a memória e o futuro, aquele com quem perdemos demasiado tempo, deixa de existir. Porque a vida são dois dias e o primeiro já passou.

(Eu sei que isto nao faz qualquer sentido, mas eu sinto)